14 setembro 2007

Férias

Um período de férias me foi forçado por superiores no trabalho.

Não que eu não as merecesse. Simplesmente não sabia o que fazer com tempo livre. Tinha medo desse tempo livre. Tinha pavor de ter que encontrar pessoas nesse tempo livre.

Tomei a decisão de me lançar numa "road trip" solitária, que subisse a costa do Brasil até Salvador e voltasse por Brasília e depois Belo Horizonte. Era evidente a falta de planejamento. Os poucos amigos que souberam da idéia estapafúrdia não entendiam a razão de uma viagem tão estranha.

Só eu sabia que era para poder ficar isolado de qualquer contato humano pelo período mais longo possível. Eu teria que dirigir muitas horas, todos os dias. E intimamente já sabia que pararia apenas em lugares desolados para pernoitar.

Mas a vida é cheia de surpresas...

Assim que o Bala-de-Prata - meu fiel Celta 1.0 - pôs as rodas na estrada o sol brilhou. A correntinha da sorte devolveu a luz numa faísca. Acendi o cigarro que pendia do canto da boca e arrumei os óculos escuros.

Alguma coisa mudou em mim nessa hora.

Estava vibrante. Meu sangue, que por meses parecia gelado, ferveu. Senti um calor nas costas e no pescoço. Uma pressa gostosa de viver aquela viagem e os milhões de surpresas que me aguardavam.

...

Já na segunda parada noturna eu me esqueci da meta de falar com o menor número de pessoas possível e resolvi tomar uma cerveja num bar. Como era uma cidadezinha fuleira, o bar não oferecia muita coisa, cerveja bem fria (o que não é exatamente gelada), uns torresmos horripilantes (pelo menos para um paulistano como eu) e uns habitantes locais de dicção prejudicada (não sei se pela bebida ou pela falta de dentes importantes).

Mas - ah, correntinha da sorte - apareceu aquela pérola. Gostosa, exótica, simples e perfumada, talvez perfumada demais. Eu ainda me perguntava se ela era desdentada como os outros freqüentadores do bar quando ela me sorriu um sorriso completo. Sim, uma baianinha, da terra, daquelas que adoram um estrangeiro - como eu.

Não preciso contar o nome dela.

Quando me dei conta já estava pagando cervejas para umas cinco pessoas entre bebuns e amigas daquela coisinha deliciosa. Era um exercício e tanto compreender o que ela falava, e mais difícil ainda era arrumar assunto, mas eu fiz meu melhor.

Você é mesmo celestial! - tentei ser poético, mas soou horrível. Isso que dá se separar da mulher e depois ficar meses isolado. Sorte que ela não entendeu o que é celestial. Parti para outra abordagem, um pouco menos sutil.

Você é muito bonita, bê-u cê-e tê-a, BO-NI-TA!

Ai, você é tão romântico... parece até coisa da novela! - ela se derreteu e me confundiu com um artista da Record. Não demorou muito eu inventei uma desculpa para sair do bar e rebocar o prêmio da noite até o carro.

Mal chegamos perto do Bala-de-Prata, estacionado no pátio escuro de uma pousada mequetrefe - a única da cidade - e eu já fui agarrando a moça com mãos por todos os lados. Trepamos em cima do capô. Meses sem dar uma me fizeram sentir como um touro, um leão. A coisa foi selvagem.

E meio barulhenta. Acabou chamando a atenção de alguém que passava por perto. Que acabou avisando um primo da moça, que chamou o irmão da moça, que chamou seus dois irmãos. E o pai também.

Eu ainda sorria sem fôlego quando percebi estar cercado por quatro caras. Nenhum deles bêbado, nenhum deles sorrindo. Tentei explicar alguma coisa, mas no meio da primeira frase já tomei uma muqueta na cara. depois outra, depois outra.

Não preciso descrever o que aconteceu.

No dai seguinte acordei ao lado do valente Celta. Eu estava todo arrebentado, mas feliz por não terem destruído meu carro; e exultante por não ter sido castrado como nas histórias que os porteiros do prédio que eu morava quando era garoto contavam.

Sentia dores por todo o corpo. Entrei no carro e me olhei no espelho. vai ser chato explicar para meus amigos e colegas de trabalho como perdi tantos dentes. Agora não chamaria mais a atenção no bar.

Pior vai ser explicar como perdi o dedo anular, arrancado com um alicate quando prometi casar com a menina.

Fui ofuscado por um raio de sol que refletiu na correntinha da sorte. Merda.

Liguei o carro e peguei a estrada, rumo à São Paulo.

Nenhum comentário: