25 dezembro 2006

Um milagre de Natal

Era noite de 23 de dezembro há muitos anos atrás. Na época, a minha mulher ainda era minha namorada. Fui buscá-la na Vila Romana e assim que ela entrou no carro descobri onde iríamos - o Rancho Nordestino, no Bexiga. Teríamos que parar num caixa eletrônico porque nesse bar somente aceitavam dinheiro - eram os primórdios do visa eléctron e eu estavam sem meu talão de cheques.

"A agência da Clélia é a melhor!" - exclamei para a moça bonita sentada ao meu lado. Engatei a primeira, olhei para todos os lados e arranquei. "Ei! Cuidado!" - Ela me pareceu com um pouco de medo, então resolvi explicar. Havia rapidamente calculado os riscos de ser vítima de um seqüestro-relâmpago e decidi parar na agência do Banco do Brasil na rua Clélia.
"Eu sei que lá é meio escuro, mas as outras opções são a Afonso Bovero ou a Heitor Penteado" - muito mais visadas por marginais em geral. - "Sem contar que a faixa de ônibus diminui a probabilidade de abordagem por motoqueiros e..."

"Calma, cara!" - interrompeu minha namorada - "Fica calmo, ninguém vai te seqüestrar hoje."

Sem mais acontecimentos inesperados ou surtos de paranóia, chegamos ao bar. Era um bar de esquina, na Manuel Dutra com a XXX, todo aberto, colunas cobertas de pastilhas azul-claro. Vários amigos, muitos brindes, intermináveis risadas. Até que alguém me pergunta - "Ei, você não é judeu?" - ao que se segue a invitável - "E como é o natal de vocês?".

Entre cachaças e torresmos me pus a explicar os pormenores do ritual que chamávamos de Ceia da Larica - "Isso era quando eu tinha uns 14 anos" - comecei - "A gente abria sessão com um beque natalino nevado e um shot de qualquer bebida que tivesse no bar da casa do pai do Roni".

O resto se desenrolava entre baseados, rodadas de baconzitos e licores de ingredientes estranhíssimos, quem sabe eram regalos de natais imemoriáveis que o pai de nosso anfitrião nunca teve coragem de provar. "Finalmente, quando a larica era insuportável, comíamos um rango absolutamente nojento de miojo enquanto blasfemávamos agoniados"

"Que merda! parece até aquele Festivus" - exclamou um dos convivas, que provavelmente só escutou o finzinho da minha explicação. "Festivus? Que porra é essa???" - disse, sem entender. "Aquela festa que o pai do Geroge Costanza inventou para celebrar em lugar do natal" - meu companheiro de mesa explicou - "Ah, do Seinfeld..." - respondi, para demonstrar que também tinha um pouco de referência cultural.

"Isso! É aquela festa que em vez da árvore de natal eles montam um mastro de alumínio sem enfeites" - o sujeito se empolgou - "Nunca vi esse" - disse, disfarçando o saco cheio - "É! E depois ficam todos falando das coisas ruins que fizeram uns pros outros. Rá, rá, rá!" - o cara se divertia sozinho. "Comédia, mas não tem nada a ver com a Ceia da Larica" - cortei, certo de que depois dessa o adversário capitularia. Eu fui surpreendido. "Mas é tão mesquinho e escroto quanto!" - foi o golpe final do meu oponente.

"Rá rá rá!" - explodiu a mesa em gargalhadas.

Como era natal resolvi não responder a altura. Nem virar a mesa e quebrar uma garrafa na cabeça de alguém. Isso provavelmente não causaria boa impressão na minha futura esposa. Para quebrar a tensão uma boa alma propôs um brinde. "Com discurso!" - uma menina pediu. "E quem vai discursar?" - surgiu a pergunta - "Ele, que é judeu!" - veia a resposta, que soou surpreendentemente óbvia para mim.

"Eu não!" - tentei me esquivar - "Discurso! Discurso! Discurso!" - respondeu o coro. Estava encurralado. Não tinha por onde escapar. Aquele momento pareceu durar muito. Tive tempo de pensar na minha relação com Jesus Cristo. Pensei nos milênios de perseguições. Pensei na Inquisição, nos Pogroms. Pensei na Segunda Guerra Mundial e nos seis milhões de judeus assassinados, entre eles o pai, a mãe e quase todos os oito irmãos e irmãs do meu avô. Não era o estado de espírito ideal para um discurso de natal. Subi numa cadeira. Abri a boca.

Então, o milagre.

É curioso. Milagres na vida real não vêm com som de clarinetas nem luzes ou chuva de pétalas. Esse, pelo menos, veio acompanhado pelo som de uma batida de carro. CRASH!!! - sem freada, sem grito, nem nada, só a porrada num volume altíssimo. Em seguida uma chuva de pedacinhos de vidro e plástico entrou no bar e se espalhou por todo o chão.

Eu estava de costas para a rua, mas de pé na cadeira, preparado para o discurso. Não vi o que aconteceu, mas mesmo assim demorei uns 10 segundo em choque. Em silêncio, assim como o resto das pessoas do bar. Me virei, e a primeira coisa que vi foi um disco que parecia a calota. Estava uns sete ou oito metros distante do lugar onde uma vez ficou a roda dianteira esquerda - essa sim, totalmente fora de vista. O tal disco, numa segunda olhada, era na verdade a ventoinha do motor.

Olhei para o carro com medo e vi um destroço azul quase na contramão, enfiado em um poste, com metade da frente estranhamente amassada. Através dos vidros estilhaçados grudados na película do insul-film eu só distinguia formas vagas e brancas. Eram os airbags. De dentro do veículo - um Peugeot, como descobri depois numa grade do motor embaixo da minha cadeira - saíram dois homens cambaleantes, em estado de choque e cheirando à álcool.

O clima festivo da noite já era, é verdade. Mas isso me parecia positivo. Triplamente positivo.Se não fosse o poste eu e muitos outros no bar estaríamos mortos. Se não fossem os airbags o motorista e o passageiro do carro estariam mortos. Se não fosse o acidente eu teria feito o meu discurso e estragado a noite, sem falar na possibilidade de arriscar o incipiente namoro.

O natal é mesmo uma época mágica.

14 dezembro 2006

Fuga

Era um daqueles dias comuns. Fiz meu café por volta das 9:30, sonhando com uma máquina que fizesse meu café espresso igualzinho ao da padaria.

Fumei uns cigarros enquanto lia os emails e notícias. O toque do celular perturbou minha manhã de tédio. Um freela. O prazo era absolutamente suicida.

Não era suicida simplesmente no sentido de ser impossível. Era muito pior. Era suicida no sentido que, por exemplo, os judeus suicidas não têm direito a ser enterrados no mesmo solo em que os outros judeus são enterrados.

Era suicida no sentido que a minha carcaça amaldiçoada teria como destino apodrecer num lixão infecto, um antro de doenças onde urubus e ratazanas competiriam por um naco ressecado do meu traseiro morto e imundo. Um lugar que vocês não querem conhecer. Nem eu.

E eu topei.

Topei porque pagava bem e eu poderia comprar a minha máquina de café expresso, e com o troco, trocar meu telefone celular. Poderia comprar um gravador digital e uma mesa de luz. Poderia várias coisas!

A equipe que trabalharia comigo era experiente. Um sujeito um pouco mais velho que eu, gente fina, apesar da cara de que havia passado os últimos anos em masmorras; e uma mulher, mais ou menos da mesma idade, que tinha uma fílha pequena.

O trabalho começou na terça feira de tarde e deveria ser entregue sexta, cinco e meia da tarde, na Avenida Paulista, sem falta. Tinhamos que entregar o serviço completo em tempo ou o cliente, que era um mala sem alça, provavelmente cancelaria o trabalho. Isso se ele estivesse de bom humor.

O início foi amigável, piadas, histórias. O trabalho fluía. Estávamos otimistas. Durante a noite dormimos em turnos de quatro horas.

Quarta pela manhã fomos tomar o café. Tomei dois. Já voltei ansioso pro estúdio. Não almocei, e nem eles. Paramos para o lanche por volta das cinco.

As oito da noite meu colega saiu para comprar cigarros na padaria. Eu e a moça conversamos um pouco, ainda bem humorados, mesmo em vista das próximas noites. O rapaz volta duas horas depois - nas quais eu dormi - todo animado, coçando o nariz e avisando que agora estava certo de que todo mundo teria incentivo para aguentar até o final.

Ele apresenta seu conceito de motivação, a cenoura. Pois é, é deprimente mesmo. O cara vem com cocaína pro escritório, diz que você pode cheirar uma carreira a cada tanto tempo de trabalho, chama a coisa de cenoura pros burros de carga e acha que está te incentivando!.

Puta merda!

Não é preciso ser nenhum gênio pra prever que a coisa iria ficar feia. Cheiramos e tomamos café e Red Bull até o dia raiar. Trabalhei como um zumbi frenético.

Nas primeiras horas da manhã de quinta feira, tendo á frente ainda 24 horas de trabalho com probabilidade zero de poder descansar, contando com apenas 6 horas de sono nos dois últimos dias, eu fui proativo. Sugeri tentarmos negociar mais uns dias de prazo. Me voluntariei para a tarefa ingrata, inclusive.

Tenho certeza que todos vocês já viram em algum documentário da Discovery ou do Animal Planet. A mãe que protege a cria é capaz de feitos incríveis. De fato. A minha companheira de trabalho mostrou os dentes - Olha aqui, seu moleque. Eu preciso dessa grana prá bancar todas as coisas da minha filha. Se você inventar de ir negociar com eles, a gente vai perder essa grana, entendeu? E isso não vai acontecer.

Foi um choque. Se o outro cara tivesse sido agressivo, eu saberia como reagir. Mas eu não esperava o ataque de uma mãe em estado de fúria instintiva. Calei a boca e seguimos trabalhamos, tomando café e cheirando (uns muito mais, e uns muito menos).

Eu tinha virado um lixo. Nem conseguia comer direito. A moça havia comprado umas mangas uns dias antes. Eu dava umas mordidas e jogava fora. De tempos em tempos o outro cara vinha e oferecia cenoura. Eu contribuía para a harmonizar o ambiente com litros de café e maços de cigarro.

O dia passou. Eu tive taquicardia por causa do café, pressão baixa por causa do cigarro, enjôo por causa de uma coxinha. Tinha esses mal estares e rezava para meus colegas terem pena de mim e sugerirem uma pausa para dormir. Mas nada. Silêncio. E eu suando, asfixiado de ansiedade, claustrofóbico naquela salinha enevoada de cigarro, sebosa, fedendo à gente.

Tentei mais uma vez convencê-los de que valia a pena adiar o prazo de entrega por um dia apenas, para podermos dormir algumas horas. Afinal já eram quase três dias sem rpegar os olhos.

Minha iniciativa foi veementemente rechaçada. Desta vez o calaboca veio sob a forma de um "você foi contratado pra ser criativo e terminar esse trabalho. Só sai daqui quando terminar, então é melhor ser criativo, porra!" proferido pelo cara com certa dose de violência, corroborada por uma indiferença gelada da mulher, que somente arrematou - agora a gente vai até o final.

Engoli estas palavras, voltei para o meu computador e fiquei pensando nos casos em que se pode ou não fugir à responsabilidade. Me lembrei de um acontecimento muito peculiar, que se passou já há alguns anos.

Estava com um amigo no metrô. Ele era medico recém formado, vivia pulando de um plantão para outro. Eu sabia que naquele dia ele sairia do plantão por volta das 3 da tarde e combinamos de nos encontrar. O motivo eu nem lembro direito - ele tinha posto as mãos num remédio alucinógeno ou coisa do tipo.

Ele estava um caco. Um lixo mesmo. Se eu estivesse doente preferiria ver um pajé a ser atendido por um medico naquelas condições.

Entramos no vagão e nos sentamos mais ao fundo. Entre as estações Ana Rosa e Paraíso um sujeito teve um troço. Primeiro ele caiu duro, As pessoas se afastaram. Olhei para o meu amigo, que estava segurando a borda do banco com firmeza, catatônico, olhar fixo na janela em frente.

O homem, de idade indefinível neste momento de agonia, começou a babar pela boca e pelo nariz. Pssst!, Ei! – chamei meu amigo, mas ele não respondia.

Era o caso de um ataque epilético, agora até mesmo eu já reconhecia. O pobre diabo se contorcia. As mãos crispadas, olhos virados, se debatendo e esfregando a testa e a roupa clara no chão imundo do metrô

Cruz credo!!! O homem tá possuído! – gritou uma mulher no meio do vagão. Finalmente, um cara de branco levanta e vem ajudar. Era um dentista. Usou uma caneta para desenrolar a lingua do coitado, o segurou e acalmou aos poucos. Quando o vagão parou, alguns funcionários do metrô já esperavam com uma maca. O dentista e o epilético desceram.

Quando as portas se fecharam e o vagão entrou em movimento meu amigo relaxou.

Depois de descermos escutei a explicação. Como medico ele tinha a obrigação moral de atender qualquer paciente em estado de emergência. Não era como é para advogados ou engenheiros ou publitários – para quem, se não há dinheiro ou ganho imediato envolvido, não há negócio.

Mas já eram 48 hroas sem dormir, em estado de alerta e tensão, com pessoas acidentadas, sangue, fraturas, infartos. A vida de estranhos nas mãos. Isso cansa demais.

Porém sua Obrigação Moral era atender o homem. Ele havia fugido de sua Responsabilidade e se sentia culpado por isso.

Mas ele conseguira o que eu tanto queria agora. Fugir da minha responsabilidade.

Foda-se!

Foda-se foda-se foda-se! Pau no cú de todo mundo e que vão todos à merda. Que a cafeteria de merda e o celular idiota e todas essas porras queimem no inferno! Que esse cara fique devendo pro traficante dele e morra baleado! Que a filha dessa bruxa que trabalha comigo morra de desnutrição e ignorância!

Nesse momento meu colega de sofrimento me ofereçeu mais um par de carreirinhas – Vamos lá, cenoura pros burros de carga - disse sem qualquer expressão.

Sorri e aceitei. Tive a grande idéia.

Simularia um ataque epilético. Eles achariam que eu estava numa crise de overdose. Eu seria levado para o hospital, mas eles não ficariam lá para ver o fim da história. Era melhor evitar envolvimento e tinham que terminar o freela de um jeito ou de outro. Ainda mais agora, com os prováveis custos advocatícios.

Me joguei no chão, eu acho. Mas as batidas que eu dava com a cabeça nos pés da cadeira doíam demais, minha lingua me sufocava, já não escutava, tudo estava ficando escuro…

Tive mesmo um ataque, que durou muito tempo.
Tanto que agora só sei que estou no escuro e no silêncio.
Não acho que isso seja a morte.
Desconfio que estou em coma.