Era uma nova fase. Vida de solteiro. Os amigos comemoraram muito mais que eu. "Você vai ver, agora é liberdade, sem ninguém para dizer que isso ou aquilo não pode". Mas eu tinha vontade mesmo era de ficar em casa e ler livros, assisitr DVD`s. Ou ficar só deitado, olhando para o teto.
Foda.
Um vazio imenso, a sensação de que havia uma caverna dentro de mim me acompanhava a cada instante.
Tentei preencher esse vácuo com destilados e outras porcarias em noitadas com os velhos companheiros. Porém o resultado mais comum de tais aventuras etílicas era o vômito e uma duradoura ressaca. Mesmo que este paliativo fosse do meu agrado, meu sistema digestivo não teria me permitido continuar por muito tempo. Efeitos realmente adversos passaram a me assolar depois de poucas semanas de vida boêmia.
Apesar do sofrimento físico e sentimental eu não me dava por vencido. Evitava de todas as formas revelar meus pensamentos para amigos ou colegas.
Encontrei sossego no trabalho. Acordar cedo, tomar banho, me barbear. Tomar café, dirigir o carro até o escritório e cumprimentar o porteiro eternamente sorridente. Tomar o elevador, ligar o computador e checar emails. Após esse ritual eu sentia uma couraça psicológica formada. Me sentia seguro.
Assim pouco a pouco fui me isolando dos outros. Sempre atarefado, porém cordial com aqueles que dividiam o espaço de trabalho comigo. Até sorria quando tinha a infelicidade de encontrar outras pessoas durante o cafézinho.
Passei a freqüentar a academia. Agora uma desculpa muito boa para ver menos gente ainda. Havia me tornado um rato de laborartório. Branco, condicionado a sempre reagir diante dos mesmos estímulos, e habituado a correr numa esteira.
Acho que fazia exercícios já ha uns meses quando me dei conta que havia desenvolvido uma fobia por contatos prolongados com seres humanos fora do trabalho. Cuidava das plantas com esmero, mas desligava o celular assim que saia do escritório.
Percebi que acabei havia aceitado uma porção de trabalhos free-lance além do meu emprego fixo para justificar os fins-de-semana em reclusão
Trabalhava todos os dias até tarde. Comia rapidamente na padaria antes de ir para casa, onde trabalhava mais um par de horas nos free-lances. Acordava muito cedo, ia para a academia, tomava banho e me barbeava por lá. Completava o ritual na empresa, tomando o terrível café da máquina do meu andar.
Num desses dias a máquina estava quebrada. Não bebi café. Acho que adormeci com a cabeça apoiada nas mãos, cotovelos apiados na mesa. Minha chefa (na época era uma chefa) me acordou passando a mão delicadamente nos meus cabelos.
Acordei assustadíssimo.
Ela me olhou bem nos olhos.
- Você não acha que precisa parar? Só um pouco?
28 agosto 2007
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