01 Outubro 2008

C******

“Vamos tomar café?” – Assim começou essa curiosa história.

Todos os dias eu via aquela moça, mestiça de traços orientais e cabelo bem escuro, andando para lá e para cá, e pensava – puxa, que menina bonita. Até que um dia ela parou perto da minha mesa e disse “Vamos tomar café?”.

Eu topei, é claro. E também aceitei o convite para um cigarro depois do almoço, e depois de uma semana já era o meu hábito, o trabalho vinha necessariamente depois de um café com C******.

Um dia veio a pergunta – “Você gosta de cinema?”. Assim, sem mais. Respondi que sim, e na noite daquela segunda-feira fomos ver um filme, nem me lembro qual, que ela havia escolhido e eu fiz a gentileza de aceitar como ótima idéia. Durante a sessão eu fui sorrateiramente me aproximando, me aproximando, me aproximando... quando encostei em seu braço ela me pediu desculpas e se encolheu um pouquinho na poltrona. Uns tantos minutos depois fiz nova tentativa, escutei o mesmo pedido de desculpas e achei que deveria ir com mais calma. A sessão terminou e na hora da despedida queria dar um abraço um instante mais demorado, para saber se haveria alguma reciprocidade. Nada, ela quase pulou para longe. “Assim são as coisas”, pensei, e não me chateei.

Na quarta-feira fui convidado novamente para ir ao cinema. Aceitei, e desmarquei o futebol com os amigos. Dessa vez tomei a iniciativa e sugeri um filme francês bacana e meio romântico. Era uma forçada de barra meio óbvia, mas decidi que era a atitude correta. Mais uma vez fui chegando pertinho aos poucos, milímetro após milímetro. E ao tocar no braço dela ouvi a já famosa frase. Nem tentei grandes abraços na despedida.

Na semana seguinte, ainda pontuada por copos de café e pausas para o cigarro, já estava certo de que minha amiga era isso mesmo, uma amiga, uma mulher bonita em quem eu nunca poria as mãos. Mas na quinta-feira fui novamente convidado, agora para o filme dos Simpsons. Nem tentei encostar nela. Quando aconteceu, sem intenção minha, eu mesmo pedi desculpas.

Sexta-feira eu cheguei para trabalhar meio macambúzio. O dia estava cinzento e eu desanimado, melancólico. Na minha tela pulou uma janelinha com a mensagem “Você já tem plano para o fim de semana?” – respondi rapidinho “Ainda não, por quê?”. A frase seguinte causou em mim um efeito que poucas vezes senti ao ler alguma coisa. “E se a gente passasse o dia inteiro embaixo do edredom escutando a chuva e vendo DVD?”.

Aqui eu abro um parêntese. Eu tenho coração de pedra. Sou do bem, como se diz, tenho princípios e valores, mas é super difícil que eu me comova, me apaixone, me deixe levar. Só que dessa vez foi diferente. Sério. Tremi nessa hora, fiquei eufórico, quis sair correndo e pegar ela pela mão e levar para casa. Dar colo para essa japonesinha por dias e dias de chuva lá fora.

E, de fato, fomos assistir DVD sob o edredom, e não precisei de desculpas para encostar nela, nem para abraçar e beijar. Eu fiquei feliz por dias, felicidade alimentada não só por pausas para o café e cigarros, mas almoços, filmes, DVDs e edredons.

Em pouco tempo fazíamos bem mais que assistir filmes embaixo do edredom. Antes dela eu havia ficado sozinho por meses e também era a primeira mulher por quem eu sentia alguma coisa além de tesão desde minha separação. O sexo foi embaraçosamente complicado na primeira vez, um pouco melhor na segunda, e satisfatório na terceira. Mas me esforçava e gostava muito, e logo a coisa ficou quente.

Ainda lembro como foi estranho sentir minha mão úmida do suor dela. Lembro dos cabelos escuros desgrenhados, da pele vermelha, do rosto afogueado, os olhos fechados. Já tinha esquecido como é bonito quando uma mulher goza. E essa mulher tinha um jeito especialmente singelo de gozar. Que minhas futuras mulheres não leiam isto, ou se tiverem que ler, que me entendam, mas não quero nunca esquecer o que eu vi.

Tudo era maravilhoso até que essa bolha de felicidade que morava embaixo de um edredom teve que enfrentar o resto da minha vida. Ou seja, meu jeito assumidamente egoísta de ver o mundo, meus amigos, compromissos sociais e a vontade dela de levar as coisas à sério. Vontade essa da qual eu não compartilhava e que provavelmente foi o que determinou o fracasso desse relacionamento.

Mas não foi o fim dos cafezinhos e cigarros, afinal ainda trabalhávamos na mesma empresa. Tive de enfrentar pequenos constrangimentos, como na oportunidade em que a ex-namorada seguinte e ela se encontraram, mas a boa educação sobrevinha sempre e a convivência era tranqüila.

Até o dia em que eu fiquei sabendo (através da tal outra ex-namorada, possivelmente num acesso de ciúme) que C****** iria se casar. Estava online um dia quando a encontrei, trocamos mensagens. “Puxa, fiquei sabendo que você vai casar, é verdade?” – “É sim, em setembro!” – “Que legal, e quem é felizardo, o Émerson?” – “Ele mesmo, como você sabe?” – “Eu desconfiava, acho que vocês vão ser muito felizes” – “Você só não é muito feliz porque não quer, seu babaca”. Tomei essa resposta atravessada e desse dia em diante, por uns meses, a cada vez que a via, ficava com vontade de voltar para baixo do edredom.

Até que chegou aquela segunda-feira. Faltava uma semana para o casamento. Era um dia bonito, bem claro e brilhante, apesar de frio. Eu a vi conversando com um de meus superiores. Tive uma vontade louca de deixar as bobagens de lado, puxa-la pelo braço e falar que queria que ela fosse muito feliz, que desejava muita sorte. Mas perdi a coragem quando a olhei nos olhos, e acabei perguntando por outra pessoa que eu sabia não estar ali.

Entrei numa reunião, e quando saí o meu superior me chamou na sala dele e disse “Cara, tive que demitir a C******”.

Já não cabia mais nenhum “boa sorte” ou “parabéns”. Já tinha passado o meu tempo. Senti um remorso surdo no peito, uma culpa que não era minha. Foi esse o fim melancólico da curiosa história de C****** em minha vida.

20 Setembro 2007

Jantar

Fui jantar no meu bar favorito. Com minha ex-mulher.

Esse tipo de encontro sempre guarda a possibilidade de uma conversa potencialmente tensa.

Eu cheguei antes. Uns tantos minutos antes. Haviam conhecidos por lá. mas eu, que não queria dividir a atenção com ninguém - habilmente evitei ser visto e me sentei de costas para o salão, voltado para o bar e suas altas paredes com prateleiras até o teto, com centenas, talvez milhares de garrafas de bebidas destiladas enfileiradas.

Isso era bom. Se a conversa ficasse muito pesada ou se eu me irritado poderia usar do infalível artifício de catalogar as marcas de cachaça mentalmente. Experimente isso você também! Dá uma sensação de conforto, segurança e tranquilidade que anestesia qualquer sensação ruim.

Enquanto esperava comandei uma porção de azeitonas pretas, um chopp claro e uma cachacinha. Claudionor. É uma aguardente deliciosa mas tem um defeito. O nome é de travesti.

Um copo de chopp, uma dose de cachaça e meia porção de azeitonas depois meu celular tocou. Era minha ex-mulher perguntando o endereço. Com o trânsito e a habitual dificuldade de encontrar vagas calculei quanto tempo ela levaria e conclui que cabia mais uma cachaça antes dela chegar.

A conversa foi boa. Calorosa até. E não era apenas a cachaça. O bom humor e o estado de espírito dela encheram minha alma de boas energias. Não me dei contas na hora, mas estava imbuído de uma nostalgia que se consumava, uma lembrança revivida dos nossos bons tempos como companheiros.

Pedimos os pratos, comemos, bebemos, pedi uam sobremesa e depois um café. Paguei a conta sem perceber. Caminhamos juntos até o carro dela e nos despedimos com promessas de repetir o programa, quem sabe até com mais amigos.

A coisa só assentou quando cheguei em casa. Só. Escovei os dentes e fui me deitar. Como sempre a janela estava aberta, e a luz da rua iluminava o teto do quarto.

Meus sonhos foram felizes, mas ao acordar - um pouco melancólico - não consegui me lembrar do enredo de nenhum deles. Nem dos personagens.

Mas podia adivinhar.

14 Setembro 2007

Férias

Um período de férias me foi forçado por superiores no trabalho.

Não que eu não as merecesse. Simplesmente não sabia o que fazer com tempo livre. Tinha medo desse tempo livre. Tinha pavor de ter que encontrar pessoas nesse tempo livre.

Tomei a decisão de me lançar numa "road trip" solitária, que subisse a costa do Brasil até Salvador e voltasse por Brasília e depois Belo Horizonte. Era evidente a falta de planejamento. Os poucos amigos que souberam da idéia estapafúrdia não entendiam a razão de uma viagem tão estranha.

Só eu sabia que era para poder ficar isolado de qualquer contato humano pelo período mais longo possível. Eu teria que dirigir muitas horas, todos os dias. E intimamente já sabia que pararia apenas em lugares desolados para pernoitar.

Mas a vida é cheia de surpresas...

Assim que o Bala-de-Prata - meu fiel Celta 1.0 - pôs as rodas na estrada o sol brilhou. A correntinha da sorte devolveu a luz numa faísca. Acendi o cigarro que pendia do canto da boca e arrumei os óculos escuros.

Alguma coisa mudou em mim nessa hora.

Estava vibrante. Meu sangue, que por meses parecia gelado, ferveu. Senti um calor nas costas e no pescoço. Uma pressa gostosa de viver aquela viagem e os milhões de surpresas que me aguardavam.

...

Já na segunda parada noturna eu me esqueci da meta de falar com o menor número de pessoas possível e resolvi tomar uma cerveja num bar. Como era uma cidadezinha fuleira, o bar não oferecia muita coisa, cerveja bem fria (o que não é exatamente gelada), uns torresmos horripilantes (pelo menos para um paulistano como eu) e uns habitantes locais de dicção prejudicada (não sei se pela bebida ou pela falta de dentes importantes).

Mas - ah, correntinha da sorte - apareceu aquela pérola. Gostosa, exótica, simples e perfumada, talvez perfumada demais. Eu ainda me perguntava se ela era desdentada como os outros freqüentadores do bar quando ela me sorriu um sorriso completo. Sim, uma baianinha, da terra, daquelas que adoram um estrangeiro - como eu.

Não preciso contar o nome dela.

Quando me dei conta já estava pagando cervejas para umas cinco pessoas entre bebuns e amigas daquela coisinha deliciosa. Era um exercício e tanto compreender o que ela falava, e mais difícil ainda era arrumar assunto, mas eu fiz meu melhor.

Você é mesmo celestial! - tentei ser poético, mas soou horrível. Isso que dá se separar da mulher e depois ficar meses isolado. Sorte que ela não entendeu o que é celestial. Parti para outra abordagem, um pouco menos sutil.

Você é muito bonita, bê-u cê-e tê-a, BO-NI-TA!

Ai, você é tão romântico... parece até coisa da novela! - ela se derreteu e me confundiu com um artista da Record. Não demorou muito eu inventei uma desculpa para sair do bar e rebocar o prêmio da noite até o carro.

Mal chegamos perto do Bala-de-Prata, estacionado no pátio escuro de uma pousada mequetrefe - a única da cidade - e eu já fui agarrando a moça com mãos por todos os lados. Trepamos em cima do capô. Meses sem dar uma me fizeram sentir como um touro, um leão. A coisa foi selvagem.

E meio barulhenta. Acabou chamando a atenção de alguém que passava por perto. Que acabou avisando um primo da moça, que chamou o irmão da moça, que chamou seus dois irmãos. E o pai também.

Eu ainda sorria sem fôlego quando percebi estar cercado por quatro caras. Nenhum deles bêbado, nenhum deles sorrindo. Tentei explicar alguma coisa, mas no meio da primeira frase já tomei uma muqueta na cara. depois outra, depois outra.

Não preciso descrever o que aconteceu.

No dai seguinte acordei ao lado do valente Celta. Eu estava todo arrebentado, mas feliz por não terem destruído meu carro; e exultante por não ter sido castrado como nas histórias que os porteiros do prédio que eu morava quando era garoto contavam.

Sentia dores por todo o corpo. Entrei no carro e me olhei no espelho. vai ser chato explicar para meus amigos e colegas de trabalho como perdi tantos dentes. Agora não chamaria mais a atenção no bar.

Pior vai ser explicar como perdi o dedo anular, arrancado com um alicate quando prometi casar com a menina.

Fui ofuscado por um raio de sol que refletiu na correntinha da sorte. Merda.

Liguei o carro e peguei a estrada, rumo à São Paulo.

28 Agosto 2007

Trabalho

Era uma nova fase. Vida de solteiro. Os amigos comemoraram muito mais que eu. "Você vai ver, agora é liberdade, sem ninguém para dizer que isso ou aquilo não pode". Mas eu tinha vontade mesmo era de ficar em casa e ler livros, assisitr DVD`s. Ou ficar só deitado, olhando para o teto.

Foda.

Um vazio imenso, a sensação de que havia uma caverna dentro de mim me acompanhava a cada instante.

Tentei preencher esse vácuo com destilados e outras porcarias em noitadas com os velhos companheiros. Porém o resultado mais comum de tais aventuras etílicas era o vômito e uma duradoura ressaca. Mesmo que este paliativo fosse do meu agrado, meu sistema digestivo não teria me permitido continuar por muito tempo. Efeitos realmente adversos passaram a me assolar depois de poucas semanas de vida boêmia.

Apesar do sofrimento físico e sentimental eu não me dava por vencido. Evitava de todas as formas revelar meus pensamentos para amigos ou colegas.

Encontrei sossego no trabalho. Acordar cedo, tomar banho, me barbear. Tomar café, dirigir o carro até o escritório e cumprimentar o porteiro eternamente sorridente. Tomar o elevador, ligar o computador e checar emails. Após esse ritual eu sentia uma couraça psicológica formada. Me sentia seguro.

Assim pouco a pouco fui me isolando dos outros. Sempre atarefado, porém cordial com aqueles que dividiam o espaço de trabalho comigo. Até sorria quando tinha a infelicidade de encontrar outras pessoas durante o cafézinho.

Passei a freqüentar a academia. Agora uma desculpa muito boa para ver menos gente ainda. Havia me tornado um rato de laborartório. Branco, condicionado a sempre reagir diante dos mesmos estímulos, e habituado a correr numa esteira.

Acho que fazia exercícios já ha uns meses quando me dei conta que havia desenvolvido uma fobia por contatos prolongados com seres humanos fora do trabalho. Cuidava das plantas com esmero, mas desligava o celular assim que saia do escritório.

Percebi que acabei havia aceitado uma porção de trabalhos free-lance além do meu emprego fixo para justificar os fins-de-semana em reclusão

Trabalhava todos os dias até tarde. Comia rapidamente na padaria antes de ir para casa, onde trabalhava mais um par de horas nos free-lances. Acordava muito cedo, ia para a academia, tomava banho e me barbeava por lá. Completava o ritual na empresa, tomando o terrível café da máquina do meu andar.

Num desses dias a máquina estava quebrada. Não bebi café. Acho que adormeci com a cabeça apoiada nas mãos, cotovelos apiados na mesa. Minha chefa (na época era uma chefa) me acordou passando a mão delicadamente nos meus cabelos.

Acordei assustadíssimo.

Ela me olhou bem nos olhos.

- Você não acha que precisa parar? Só um pouco?

14 Julho 2007

Bar

Saí com uma amiga. Foi dia desses, nessa nova vida de solteiro.

Combinamos de ir num bar bem bacana, ambiente aconchegante e tudo mais.
Ela era amiga de muitos anos, mas à noite todos os gatos são pardos, então me preparei com a correntinha da sorte, a camisa mais cool e mais limpa que eu tinha e tomei meu rumo.

Subi no Bala-de-Prata (meu valente Celta 1.0 prateado) e arranquei em direção à Vila Madalena. Uma sequência que havia começado tão bem com os seis primeiros sinais sempre verdes foi interrompida por alguns pedestres sem-noção que resolveram atravessar a rua fora da faixa, correndo bem na minha frente.

Filhos-da-puta!

Contive meus instintos mais sanguinários e freei com antecedência, no tempo certinho para assustar o último da turma. Parado antes da faixa de pedestres me senti um cidadão exemplar e cumpridor do dever cívico.

Merecia uma recompensa - resolvi que naquele momento era socialmente aceitável futucar o nariz. Pois dito e feito, bem no instante em que eu desencavei aquele melecão grotesco, ouço uma buzinadinha leve e percebo alguém acenando para mim no carro ao lado.

Olhei tentando disfarçar e percebi que se tratava de uma gatinha. Baixei a janela enquanto ela perguntava onde ficava tal bar. Ela tinha um olhar engraçado. - Que bar é esse? - perguntei. O olhar engraçado era na verdade um riso mal reprimido, que terminou por explodir numa gargalhada estrondosa entrecortada por um "esquece", prenuncio da fuga precipitada da moça.

A correntinha da sorte já foi melhor - eu pensei.

Consegui estacionar bem perto, menos de uma quadra de distância. Melhor que isso, como era cedo não havia nenhum guardador de carro.

Cheguei no bar e chaga um torpedo - vou atrasar mas chego logo. Cara de pau! essa menina me deixou esprando mais de meia hora. Pedi a cachacinha de lei e um torresmo pra arrematar - saúde!

Estrategicamente depois do final da porção de torresmo minha amiga chegou, toda esbaforida, meio estressada e reclamando de um carinha mala-sem-alça que ela havia beijado - esses caras saem com a gente duas vezes e já acham que têm um relacionamento, credo!

Depois a moça discorreu sobre uns casos anteriores que haviam acabado meio mal. incluindo nesse rol a história de um sujeito por quem ela não tinha muito tesão mas topou sair assim mesmo depois de receber um indecentíssimo convite para um menage com mais um amigo - me deu uma curiosidade louca, ela explicou - e chegou na hora H os dois caras tiveram ejaculação precoce. Traumático, anos de análise para ela se libertar de todos os preconceitos e medos e agora isso...

Contive o choque e disfarcei o espanto. Pedi mais uma cachaça.

Lá para o final da conversa ela faz um revelação - Eu acabo tendo que aturar cada coisa, mas tudo o que eu preciso é tapar esse buraco... Toquei a correntinha da sorte com os dedos e pensei - É hoje, a correntinha não falha!

Pedi mais dois drinques - a mocinha não era fraca. Depois de uns goles, senti o calor no ar e parti para o beijo num momento que ela me olhou fixamente.

Ei! Que é isso! - ela falou numa voz bem fina e meio alta demais. Um monte de gente virou para olhar.

Engasguei. Gaguejei. Suei e avermelhei. Tentei justificar citando o bombástico "o que eu preciso é tapar esse buraco...". Ela riu gostoso, passou a mão no meu cabelo e explicou - O buraco é no meu coração, lindo! Acho que você se confundiu, nós somos muito amigos...

Uma meia hora super constrangedora passou até que eu conseguisse pagar a conta. Caminhei até meu carro ruminando a cena patética.

O flanelinha se aproximou - cinco conto e tá tudo em casa, chefão. Respondi que havia dado a grana para outro cara na ida. Porra, alemão, os caras te enganaram, só eu fico aqui nesse lugar - o figura retrucou, meio irritado - Aí, alemão, te fizeram de otário!

A agressividade do sujeito não me intimidou. Dei partida e guieilentamente até em casa. Os fatos recentes não saiam da minha cabeça, que parecia estramente pesada e oca. Só o eco das palacras a preenchia "aí, alemão, te fizeram de otário!"

07 Maio 2007

Sem título

Separei todos os seus CD's de música e de computador, backups, essas coisas. Coloquei na caixa grande.
Que bom, valeu.
Seus lápis e seus pincéis estão na caixinha de madeira.
Não, nessa eu guardei o incenso, estão naquela maior.
Ah...

...Cadê minhas florzinhas de papel?
Essas coisinhas mais frufrus eu cocloquei na lata de biscoito que você trouxe da viagem de Portugal.
Brigado... ela disse numa voz que saiu meio apertada.
Mas eu roubei esses dois CD's, e essa peninha preta que você prendia no chapéu, tudo bem?
Tá, mas por quê a peninha preta?



Não respondi. Não lembro como me despedi. Não lembro quando dormi.
Mas quando acordei no meio da noite e me peguei ruminando a cena da devolução das últimas coisas que a mulher que viveu comigo nos últimos quatro anos fiquei com vontade de voltar lá e dizer que nunca vou esquecer de quem me ensinou tanto do lado mais delicado da vida.

10 Fevereiro 2007

Uns desenhos (nem todos novos)

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