25 dezembro 2006

Um milagre de Natal

Era noite de 23 de dezembro há muitos anos atrás. Na época, a minha mulher ainda era minha namorada. Fui buscá-la na Vila Romana e assim que ela entrou no carro descobri onde iríamos - o Rancho Nordestino, no Bexiga. Teríamos que parar num caixa eletrônico porque nesse bar somente aceitavam dinheiro - eram os primórdios do visa eléctron e eu estavam sem meu talão de cheques.

"A agência da Clélia é a melhor!" - exclamei para a moça bonita sentada ao meu lado. Engatei a primeira, olhei para todos os lados e arranquei. "Ei! Cuidado!" - Ela me pareceu com um pouco de medo, então resolvi explicar. Havia rapidamente calculado os riscos de ser vítima de um seqüestro-relâmpago e decidi parar na agência do Banco do Brasil na rua Clélia.
"Eu sei que lá é meio escuro, mas as outras opções são a Afonso Bovero ou a Heitor Penteado" - muito mais visadas por marginais em geral. - "Sem contar que a faixa de ônibus diminui a probabilidade de abordagem por motoqueiros e..."

"Calma, cara!" - interrompeu minha namorada - "Fica calmo, ninguém vai te seqüestrar hoje."

Sem mais acontecimentos inesperados ou surtos de paranóia, chegamos ao bar. Era um bar de esquina, na Manuel Dutra com a XXX, todo aberto, colunas cobertas de pastilhas azul-claro. Vários amigos, muitos brindes, intermináveis risadas. Até que alguém me pergunta - "Ei, você não é judeu?" - ao que se segue a invitável - "E como é o natal de vocês?".

Entre cachaças e torresmos me pus a explicar os pormenores do ritual que chamávamos de Ceia da Larica - "Isso era quando eu tinha uns 14 anos" - comecei - "A gente abria sessão com um beque natalino nevado e um shot de qualquer bebida que tivesse no bar da casa do pai do Roni".

O resto se desenrolava entre baseados, rodadas de baconzitos e licores de ingredientes estranhíssimos, quem sabe eram regalos de natais imemoriáveis que o pai de nosso anfitrião nunca teve coragem de provar. "Finalmente, quando a larica era insuportável, comíamos um rango absolutamente nojento de miojo enquanto blasfemávamos agoniados"

"Que merda! parece até aquele Festivus" - exclamou um dos convivas, que provavelmente só escutou o finzinho da minha explicação. "Festivus? Que porra é essa???" - disse, sem entender. "Aquela festa que o pai do Geroge Costanza inventou para celebrar em lugar do natal" - meu companheiro de mesa explicou - "Ah, do Seinfeld..." - respondi, para demonstrar que também tinha um pouco de referência cultural.

"Isso! É aquela festa que em vez da árvore de natal eles montam um mastro de alumínio sem enfeites" - o sujeito se empolgou - "Nunca vi esse" - disse, disfarçando o saco cheio - "É! E depois ficam todos falando das coisas ruins que fizeram uns pros outros. Rá, rá, rá!" - o cara se divertia sozinho. "Comédia, mas não tem nada a ver com a Ceia da Larica" - cortei, certo de que depois dessa o adversário capitularia. Eu fui surpreendido. "Mas é tão mesquinho e escroto quanto!" - foi o golpe final do meu oponente.

"Rá rá rá!" - explodiu a mesa em gargalhadas.

Como era natal resolvi não responder a altura. Nem virar a mesa e quebrar uma garrafa na cabeça de alguém. Isso provavelmente não causaria boa impressão na minha futura esposa. Para quebrar a tensão uma boa alma propôs um brinde. "Com discurso!" - uma menina pediu. "E quem vai discursar?" - surgiu a pergunta - "Ele, que é judeu!" - veia a resposta, que soou surpreendentemente óbvia para mim.

"Eu não!" - tentei me esquivar - "Discurso! Discurso! Discurso!" - respondeu o coro. Estava encurralado. Não tinha por onde escapar. Aquele momento pareceu durar muito. Tive tempo de pensar na minha relação com Jesus Cristo. Pensei nos milênios de perseguições. Pensei na Inquisição, nos Pogroms. Pensei na Segunda Guerra Mundial e nos seis milhões de judeus assassinados, entre eles o pai, a mãe e quase todos os oito irmãos e irmãs do meu avô. Não era o estado de espírito ideal para um discurso de natal. Subi numa cadeira. Abri a boca.

Então, o milagre.

É curioso. Milagres na vida real não vêm com som de clarinetas nem luzes ou chuva de pétalas. Esse, pelo menos, veio acompanhado pelo som de uma batida de carro. CRASH!!! - sem freada, sem grito, nem nada, só a porrada num volume altíssimo. Em seguida uma chuva de pedacinhos de vidro e plástico entrou no bar e se espalhou por todo o chão.

Eu estava de costas para a rua, mas de pé na cadeira, preparado para o discurso. Não vi o que aconteceu, mas mesmo assim demorei uns 10 segundo em choque. Em silêncio, assim como o resto das pessoas do bar. Me virei, e a primeira coisa que vi foi um disco que parecia a calota. Estava uns sete ou oito metros distante do lugar onde uma vez ficou a roda dianteira esquerda - essa sim, totalmente fora de vista. O tal disco, numa segunda olhada, era na verdade a ventoinha do motor.

Olhei para o carro com medo e vi um destroço azul quase na contramão, enfiado em um poste, com metade da frente estranhamente amassada. Através dos vidros estilhaçados grudados na película do insul-film eu só distinguia formas vagas e brancas. Eram os airbags. De dentro do veículo - um Peugeot, como descobri depois numa grade do motor embaixo da minha cadeira - saíram dois homens cambaleantes, em estado de choque e cheirando à álcool.

O clima festivo da noite já era, é verdade. Mas isso me parecia positivo. Triplamente positivo.Se não fosse o poste eu e muitos outros no bar estaríamos mortos. Se não fossem os airbags o motorista e o passageiro do carro estariam mortos. Se não fosse o acidente eu teria feito o meu discurso e estragado a noite, sem falar na possibilidade de arriscar o incipiente namoro.

O natal é mesmo uma época mágica.

14 dezembro 2006

Fuga

Era um daqueles dias comuns. Fiz meu café por volta das 9:30, sonhando com uma máquina que fizesse meu café espresso igualzinho ao da padaria.

Fumei uns cigarros enquanto lia os emails e notícias. O toque do celular perturbou minha manhã de tédio. Um freela. O prazo era absolutamente suicida.

Não era suicida simplesmente no sentido de ser impossível. Era muito pior. Era suicida no sentido que, por exemplo, os judeus suicidas não têm direito a ser enterrados no mesmo solo em que os outros judeus são enterrados.

Era suicida no sentido que a minha carcaça amaldiçoada teria como destino apodrecer num lixão infecto, um antro de doenças onde urubus e ratazanas competiriam por um naco ressecado do meu traseiro morto e imundo. Um lugar que vocês não querem conhecer. Nem eu.

E eu topei.

Topei porque pagava bem e eu poderia comprar a minha máquina de café expresso, e com o troco, trocar meu telefone celular. Poderia comprar um gravador digital e uma mesa de luz. Poderia várias coisas!

A equipe que trabalharia comigo era experiente. Um sujeito um pouco mais velho que eu, gente fina, apesar da cara de que havia passado os últimos anos em masmorras; e uma mulher, mais ou menos da mesma idade, que tinha uma fílha pequena.

O trabalho começou na terça feira de tarde e deveria ser entregue sexta, cinco e meia da tarde, na Avenida Paulista, sem falta. Tinhamos que entregar o serviço completo em tempo ou o cliente, que era um mala sem alça, provavelmente cancelaria o trabalho. Isso se ele estivesse de bom humor.

O início foi amigável, piadas, histórias. O trabalho fluía. Estávamos otimistas. Durante a noite dormimos em turnos de quatro horas.

Quarta pela manhã fomos tomar o café. Tomei dois. Já voltei ansioso pro estúdio. Não almocei, e nem eles. Paramos para o lanche por volta das cinco.

As oito da noite meu colega saiu para comprar cigarros na padaria. Eu e a moça conversamos um pouco, ainda bem humorados, mesmo em vista das próximas noites. O rapaz volta duas horas depois - nas quais eu dormi - todo animado, coçando o nariz e avisando que agora estava certo de que todo mundo teria incentivo para aguentar até o final.

Ele apresenta seu conceito de motivação, a cenoura. Pois é, é deprimente mesmo. O cara vem com cocaína pro escritório, diz que você pode cheirar uma carreira a cada tanto tempo de trabalho, chama a coisa de cenoura pros burros de carga e acha que está te incentivando!.

Puta merda!

Não é preciso ser nenhum gênio pra prever que a coisa iria ficar feia. Cheiramos e tomamos café e Red Bull até o dia raiar. Trabalhei como um zumbi frenético.

Nas primeiras horas da manhã de quinta feira, tendo á frente ainda 24 horas de trabalho com probabilidade zero de poder descansar, contando com apenas 6 horas de sono nos dois últimos dias, eu fui proativo. Sugeri tentarmos negociar mais uns dias de prazo. Me voluntariei para a tarefa ingrata, inclusive.

Tenho certeza que todos vocês já viram em algum documentário da Discovery ou do Animal Planet. A mãe que protege a cria é capaz de feitos incríveis. De fato. A minha companheira de trabalho mostrou os dentes - Olha aqui, seu moleque. Eu preciso dessa grana prá bancar todas as coisas da minha filha. Se você inventar de ir negociar com eles, a gente vai perder essa grana, entendeu? E isso não vai acontecer.

Foi um choque. Se o outro cara tivesse sido agressivo, eu saberia como reagir. Mas eu não esperava o ataque de uma mãe em estado de fúria instintiva. Calei a boca e seguimos trabalhamos, tomando café e cheirando (uns muito mais, e uns muito menos).

Eu tinha virado um lixo. Nem conseguia comer direito. A moça havia comprado umas mangas uns dias antes. Eu dava umas mordidas e jogava fora. De tempos em tempos o outro cara vinha e oferecia cenoura. Eu contribuía para a harmonizar o ambiente com litros de café e maços de cigarro.

O dia passou. Eu tive taquicardia por causa do café, pressão baixa por causa do cigarro, enjôo por causa de uma coxinha. Tinha esses mal estares e rezava para meus colegas terem pena de mim e sugerirem uma pausa para dormir. Mas nada. Silêncio. E eu suando, asfixiado de ansiedade, claustrofóbico naquela salinha enevoada de cigarro, sebosa, fedendo à gente.

Tentei mais uma vez convencê-los de que valia a pena adiar o prazo de entrega por um dia apenas, para podermos dormir algumas horas. Afinal já eram quase três dias sem rpegar os olhos.

Minha iniciativa foi veementemente rechaçada. Desta vez o calaboca veio sob a forma de um "você foi contratado pra ser criativo e terminar esse trabalho. Só sai daqui quando terminar, então é melhor ser criativo, porra!" proferido pelo cara com certa dose de violência, corroborada por uma indiferença gelada da mulher, que somente arrematou - agora a gente vai até o final.

Engoli estas palavras, voltei para o meu computador e fiquei pensando nos casos em que se pode ou não fugir à responsabilidade. Me lembrei de um acontecimento muito peculiar, que se passou já há alguns anos.

Estava com um amigo no metrô. Ele era medico recém formado, vivia pulando de um plantão para outro. Eu sabia que naquele dia ele sairia do plantão por volta das 3 da tarde e combinamos de nos encontrar. O motivo eu nem lembro direito - ele tinha posto as mãos num remédio alucinógeno ou coisa do tipo.

Ele estava um caco. Um lixo mesmo. Se eu estivesse doente preferiria ver um pajé a ser atendido por um medico naquelas condições.

Entramos no vagão e nos sentamos mais ao fundo. Entre as estações Ana Rosa e Paraíso um sujeito teve um troço. Primeiro ele caiu duro, As pessoas se afastaram. Olhei para o meu amigo, que estava segurando a borda do banco com firmeza, catatônico, olhar fixo na janela em frente.

O homem, de idade indefinível neste momento de agonia, começou a babar pela boca e pelo nariz. Pssst!, Ei! – chamei meu amigo, mas ele não respondia.

Era o caso de um ataque epilético, agora até mesmo eu já reconhecia. O pobre diabo se contorcia. As mãos crispadas, olhos virados, se debatendo e esfregando a testa e a roupa clara no chão imundo do metrô

Cruz credo!!! O homem tá possuído! – gritou uma mulher no meio do vagão. Finalmente, um cara de branco levanta e vem ajudar. Era um dentista. Usou uma caneta para desenrolar a lingua do coitado, o segurou e acalmou aos poucos. Quando o vagão parou, alguns funcionários do metrô já esperavam com uma maca. O dentista e o epilético desceram.

Quando as portas se fecharam e o vagão entrou em movimento meu amigo relaxou.

Depois de descermos escutei a explicação. Como medico ele tinha a obrigação moral de atender qualquer paciente em estado de emergência. Não era como é para advogados ou engenheiros ou publitários – para quem, se não há dinheiro ou ganho imediato envolvido, não há negócio.

Mas já eram 48 hroas sem dormir, em estado de alerta e tensão, com pessoas acidentadas, sangue, fraturas, infartos. A vida de estranhos nas mãos. Isso cansa demais.

Porém sua Obrigação Moral era atender o homem. Ele havia fugido de sua Responsabilidade e se sentia culpado por isso.

Mas ele conseguira o que eu tanto queria agora. Fugir da minha responsabilidade.

Foda-se!

Foda-se foda-se foda-se! Pau no cú de todo mundo e que vão todos à merda. Que a cafeteria de merda e o celular idiota e todas essas porras queimem no inferno! Que esse cara fique devendo pro traficante dele e morra baleado! Que a filha dessa bruxa que trabalha comigo morra de desnutrição e ignorância!

Nesse momento meu colega de sofrimento me ofereçeu mais um par de carreirinhas – Vamos lá, cenoura pros burros de carga - disse sem qualquer expressão.

Sorri e aceitei. Tive a grande idéia.

Simularia um ataque epilético. Eles achariam que eu estava numa crise de overdose. Eu seria levado para o hospital, mas eles não ficariam lá para ver o fim da história. Era melhor evitar envolvimento e tinham que terminar o freela de um jeito ou de outro. Ainda mais agora, com os prováveis custos advocatícios.

Me joguei no chão, eu acho. Mas as batidas que eu dava com a cabeça nos pés da cadeira doíam demais, minha lingua me sufocava, já não escutava, tudo estava ficando escuro…

Tive mesmo um ataque, que durou muito tempo.
Tanto que agora só sei que estou no escuro e no silêncio.
Não acho que isso seja a morte.
Desconfio que estou em coma.

24 novembro 2006

Olhos ardentes

Hoje bebi três xícaras de café.

Bebi até minha gengiva ficar sensível e meus dentes começarem a bater.
Foram três xícaras, acompanhadas por três cigarros num rital meticuloso. Com o primeiro gole, o primeiro trago. A última baforada quando a xícara está vazia.

Levantei da mesa com taquicardia. A ansiedade me levava pelas mãos numa mania auto-induzida, assim como provavelmente será a minha gastrite e posterior úlcera estomacal.

***

Minhas pálpebras começaram a arder hoje, lá pela hora do almoço. A sensação é a mesma que se tem quando toma-se sol por muito tempo. E o ardor piorava muito quando eu fechava os olhos. Fiquei sem piscar o dia todo.

***

Agora já se foi uma semana sem dormir. É mais de meia noite. Nos últimos dias tenho vivido numa zona nebulosa. Entre a vigília e o sonho. Parei de ir ao escritório pois não posso trabalhar assim. O que eu falo não faz mais sentido. Meus pensamentos não se concluem.

Quando me deito não posso relaxar. Sinto como se flutuasse a poucos milímetros da cama. É tanta tensão que parece eletricidade estática. Mas está dentro da minha pele. Solta faíscas no lençol.

O sol já desponta lá no fundo. Nos dias passados essa visão me causou desconforto. Mas agora estou acostumado. Posso dizer com toda a certeza que prefiro a luz da lua. Minhas pálpebras ardem menos.

***

Caí no sono. Acordei após um dia inteiro fora do ar. Mas não sonhei. Vi o futuro. Vi a sociedade em convulsão. Vi os povos em guerra. Senti o calor infernal. Mas, acima de tudo, o que mais me deixou inquieto foi entender o meu futuro miserável.

Ao acordar vi minha mulher. Tinha dentro de mim uma tristeza enorme. Tão grande que tirava de mim todas as forças e vontades. Até mesmo a vontade de chorar.

"Você está bem?" - ela perguntou. "Puxa... eu acho que não vai dar" - respondi. "O que não vai dar?" - ela disse com a voz mais doce do mundo, enquanto alisava meus cabelos. Respondi com uma certeza seca, embrulhada numa dúvida, cuja função exclusiva era proteger a única pessoa que eu reconheci em minhas visões.

"Eu vi tudo, e acho que não vai dar".

22 novembro 2006

Almoço

Hoje eu comecei um freela num estúdio novo. Não conhecia ninguém por lá.

Durante toda a manhã trabalhei numa embalagem de nuggets de frango enquanto escutava música no meu iPod. Não conversei com ninguém.

Na hora do almoço me convidaram para ir num restaurante por kilo. Na intenção de me enturmar, aceitei o convite. Me surpreendi quando me sentei e olhei para o meu prato. Nuggets! A conversa não engatou de imadiato. Alguns silêncios pontuavam a refeição. Como as primeiros assuntos não me interessavam muito, comecei a divagar.

Que assuntos seriam interessantes nessa hora? Eu gosto de falar sobre café e ansiedade. Também gosto de pensar sobre ética comparada. Existem vários assuntos que são melhores pensados do que falados. Entrei em longos debates comigo mesmo, mas tomei o cuidado de não mexer a boca. Queria terminar a primeira refeição sem passar pelo constrangimento de ser tachado de maluco.

Voltei ao planeta terra quando capturei uma frase sobre um vídeo no Youtube. Eu já havia terminado meu prato, e todos ainda comiam. Provavelmente me consideravam afobado e estranho, mas acho que escapei da pecha de louco.

Na volta ao estúdio, paramos um minuto para um café. Sem hesitar saquei meu maço de cigarros. Estava sem isqueiro. No curtíssimo tempo que eu levei para encontrar algum fumante que pudesse acender meu cigarro, meus colegas já se haviam ido. Terminei de fumar sozinho.

Ao entrar no edifício notei que havia esquecido o crachá na sala. Fui barrado na portaria.

Sem saber o que fazer, calculei o valor de todos os objetos que havia deixado sobre a mesa. Um crachá do prédio, um isqueiro e uma revista semanal. Pus de um lado da balança o isqueiro e a revista, e do outro o crachá, simbolizando a embalagem de nuggets e o magro ordenado que viria dela.

Fui embora, para nunca mais voltar. Agora sim, todos devem me considerar louco.

19 novembro 2006

Esclarecendo...

Depois de algumas me perguntarem se eu fiquei louco ao re-publicar (expressão destituída de sentido político) Cachorro Morto, esclareço: reescrevi o final.
Vocês podem notar que se trata da parte 3b. O fim original ainda está disponível.

18 novembro 2006

Cachorro Morto - Parte 1

Acordei no meio de um pesadelo. Me atracava com um inimigo mortal. Eu pulava no pescoço dele. Minhas unhas como cacos de vidro na garganta. Dei um pulo na cama, em direção à jugular da minha mulher, que despertou assustada com meu sonambulismo assassino. Tomamos café da manhã.

Fui com ela até uma emissora de TV, num distrito industrial, muito distante. Nos perdemos. Conheci o Rodoanel. Peguei trânsito no final da Anhangüera.

Resolvi emendar os compromissos e tive de emendar viagens. Grandes distâncias. Extremos da cidade.

Percorri toda a Marginal Pinheiros sem pôr o pé no freio. Sol e asfalto, calor e cimento. Driblando caminhões tomei o caminho da esquerda, Guido Caloi. Direita na M'boi Mirim, em direção ao Jardim Ângela. Apesar de ser sexta-feira, quase duas da tarde, poucos carros apareceram para dificultar o meu caminho.

Mesmo assim, já eram quase três horas guiando.

No corredor de ônibus um biarticulado parou no ponto. Um cachorrinho saiu correndo logo à frente, numa tentativa fatal de atravassar a rua. Meti o pé no freio e joguei o carro para a direita. O pequeno animal fez suas últimas - e infelizes - escolhas. Correu de um lado para o outro. O barulho dos pneus gastando na rua. Brevemente interrompido duas vezes por um som surdo. Scriiiiii toc toc scriiiiii.

Uma sensação péssima. Pressão no estômago. Olhei pelo retrovisor, e reconheci o vulto escuro de um cachorro dançando mais de um palmo acima do chão em violentas convulsões.

Parei o carro em algum lugar - uns 20 metros depois - já tentando mentalizar que era apenas um cachorro, num acidente, não era culpa minha, e se fosse, não seria muita coisa, afinal. era só um cachorrinho.

Desci do carro acendendo um cigarro. Calafrios faziam minhas mãos tremer. Ânsia de vômito.

Olhei e vi duas crianças - um menino e uma menina - e uma moça de uns vinte anos em volta do animalzinho agonizante. O menino, que provavelmente havia arrastado o bicho do meio da avenida até a calçada, pôs a mão no peito do coitado.

O corpinho aparentemente intacto, os pêlos ainda tentando me convencer que eram bonitos e saudáveis. Percebi as tetinhas - era uma cadelinha. Também notei os sangue escorrendo do ouvido. E os olhinhos para fora das órbitas. Entendi que havia acertado a cabeça.

"O coração parou de bater" - disse o menino. Fiquei em silêncio. Muito silêncio. Não ouvi ninguém chorar. Não ouvi o barulhos dos carros, ônibus e caminhões na avenida. Não ouvi nem meus pensamentos.

Cachorro Morto - Parte 2

Hoje meu coração é de pedra, atropelei um cachorro na avenida.
Mas isso não me faz sentir menos vulnerável.

Agora já é noite. Estou no trânsito, acelerando, freando, acelerando, freando, faz quase duas horas. Na Marginal Pinheiros, mais uma vez. É tão devagar que já é hora de atender aos compromissos sociais. Festa de aniversário, happy hour, lançamento de livro, vernissage em galeria - faz diferença?

Fiquei preso numa conversa desinteressante, que uma mulher me contou sobre uma viagem que eu não queria saber. Ela contava os detalhes e me cutucava no braço ou no ombro.

Eu odeio que me toquem. Afora os cumprimentos habituais nas horas habituais - apertos de mão, abraços e beijos no rosto - não sou muito chegado à proximidadde física. A não ser, é claro, de pessoas muito especiais, em momentos muito especiais.

Mas não era esse o caso.

Eu tentei me defender. Escondi o braço atrás do corpo. Foi muito pior, os toques - quase golpes àquela altura - passaram a me atingir no peito e na barriga. O desconforto da situação me subiu ao rosto. Ficou evidente que algo não me agradava. Com as costas voltadas para a parede num bar barulhento percebi que não havia saída fácil. Estava encurralado.

Sufocado.

Sob o pretexto de comprar cigarros pedi licença e saí do bar. Caminhei lentamente até uma padaria próxima. Um mendigo falou comigo. Era um mendigo jovem, negro, de rosto bonito e voz clara. "Me dá uma esmola?" Eu estranhei muito o uso do termo esmola. geralmente se escuta "me dá uma moeda" ou "me dá uma forcinha?" Neguei o dinheiro.

Entrei na padaria e comprei meu Marlboro vermelho. Na saída um pequeno tumulto havia tomado a rua, muitas vozes no meio do barulho do trânsito. Alguém havia sido atropelado. Lembrei do cachorrinho. Escutei alguém dizer que o mendigo tinha se jogado embaixo de um ônibus. Não fui olhar.

Voltei ao bar. Me sentei numa mesa vazia qualquer. Em silêncio de novo. Com muito esforço consegui fazer minha mente ficar em branco.

A mulher dos cutucões voltou. Protegido pela distância que a mesa nos obrigava a manter me senti melhor. Mas não o suficiente para falar. Acho que ela deve ter tentado conversar comigo por quase dez minutos antes de me perguntar se eu me sentia bem.

Abri a boca. Não sei o que disse. Levantei e fui embora.

Pela terceira vez no dia guiava em alta velocidade na Marginal Pinheiros. Folhas secas, pedaços de papel e outras coisas se misturavam em torvelinhos no vento. Os pequenos rodamoinhos de sujeira corriam mais que meu carro. Aquele cheiro que antecede a chuva era mais forte que o fedor do rio.

Mas chuva não veio. A verdadeira tempestade que me aguardava não estava no céu. Me esperava para o jantar.

Cachorro Morto - Parte 3b

Havia combinado de encontrar minha esposa num restaurante japonês. Escolhemos um daqueles com balcões onde você pode observar o trabalho do sushiman. Não era exatamente um restaurante tradicional, mas já existia há muito tempo e eu chamava o rapaz do outro lado do balcão pelo nome.

A conversa demorava a engrenar. Trabalhos, shows de música, livros e histórias estranhas de festas de pessoas que eu lembrava do nome mas não conhecia. Nada disso era páreo para o brilho da lâmina da faca que cortava o peixe.

O reflexo da luz no metal me hipnotizava, indo e vindo, como se a carne do atum não oferecesse resistência.

Esperei pelo momento certo. O sushiman se distraiu com algum comentário do outro lado do balcão, eu agarrei a faca e dei no pé.

Depois dessa atitude impulsiva seria difícil voltar a ser bem atendido naquele restaurante. Muito mais difícil seria minha mulher me achar normal novamente.

Corri alguns quarteirões com a arma branca nas mãos. Parei numa praça escura para descansar. Me sentei num banco. A única luz ali era o reflexo da lua na lâmina afiada.

Desde então entendi tudo.

Vivo nas avenidas. Amo as marginais. Durmo nas pontes. Tenho sonhos ansiosos em alta velocidade.

Passo meus dias a gravar lentamente - com a faca japonesa - os troncos das árvores a mensagem "A verdade é para sempre, porque a Verdade não existe".

17 novembro 2006

Hoje estou sem palavras

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Albert Bertolin - Vice, julho de 2006

09 novembro 2006

SBT

Hoje foi o primeiro dia de trabalho da minha mulher. Levei-a de carro até o SBT. Pegamos o trevo da saída 18 da Anhangüera. Uma rua ladeada de grama leva até os estúdios.

Parei na portaria. Nos beijamos. Dei a volta no pátio do estacionamento e fiz o caminho inverso na tal ruazinha.

Havia uma lombada que me fez reduzir a velocidade. Ainda sentia o gosto do beijo quando notei uma pessoa sentada na grama. Olhei e vi que na verdade eram duas pessoas, a mãe e um filho de colo. A mãe chorava como se fosse o fim do mundo.

Dirigi por mais alguns metros, até um ponto onde a rua era mais larga e fiz meia volta. Parei ao lado da mulher e abri a janela. "Moça, você está bem? Posso te ajudar?" - "Só Deus pode me ajudar, só Deus..." foi a resposta entre soluços.

Hesitei - "Olha, eu estou indo de volta para São Paulo, posso levar a senhora". Chama-la de senhora realmente não cabia na situação. Mesmo com o rosto contorcido e inchado pelo choro pude perceber que ela era um tanto mais nova que eu, vinte e poucos anos no máximo.

Ela não respondeu, apenas continuou com os soluços e as lágrimas. "Se você precisar posso te deixar em algum lugar aqui perto" - ofereci tentando não me envolver demais. Usando frases desconexas ela disse alguma coisa sobre ter ido à portaria e a terem barrado. Ela queria voltar para o marido que estava ainda tentando entrar na emissora. Também me contou que não tinha casa.

Pensamentos contraditórios tomaram conta da minha cabeça. Queria ajuda-la mas não podia perder tempo. Ainda tinha que trabalhar muito nesse dia. Abri a porta do carro para ela entrar. O bebê me ofereceu a mamadeira.

No pouco que durou nossa viagem perguntei de onde ela vinha. São José dos Campos ou São José do Rio Preto, não me recordo exatamente. "Você veio procurar o Sílvio?" - "Não, vim pedir ajuda pro Gugu".

Avistamos o marido, rodeado de sacolas com aquilo que deveriam ser provavelmente todas as posses do casal. Ele falava com o porteiro, aparentando tranquilidade. Estacionei.

" Pois não?" - me perguntou o homem uniformizado. "Eu vi essa moça tão desesperada na rua, trouxe ela e o filho para perto do marido" - "Muito obrigado, agora vai ficar tudo bem", me respondeu o funcionário da emissora.

Quis acreditar. Me concentrei e acreditei. Me despedi rapidamente, entrei no carro e acelerei em direção à estrada. Logo abaixo da placa que anuncia o início do perímetro urbano começou o engarrafamento.

04 novembro 2006

Cachorro Morto - Parte 3

Cheguei em casa.

"Por quê você demorou tanto?" - minha mulher perguntou depois de um beijo curto. Pensei no cachorro, pensei no mendigo, pensei na mulher dos cutucões. "Peguei muito trânsito." - respondi sem revelar qualquer das coisas que me perturbava.

Em silêncio ajudei-a a fazer o jantar. A luminária da cozinha desenhava na parede de azulejos amarelos. Comemos engasgados em nossa própria conversa. Evitava pensar tentando adivinhar as formas de luz.

Terminei de comer. Esperei minha mulher terminar de comer. Fomos juntos até a sala e nos sentamos no sofá. Enquanto eu passava os olhos numa revista, ela assistia televisão. Trocava tão rápido de canal que parecia assistir todos ao mesmo tempo.

Ela puxou conversa comigo. Não me sentia com vontade de responder. Silêncios diversos preenchiam nosso diálogo. Mas aquela série de perguntas sem resposta não poderia nunca ser classificada como diálogo. Era na verdade um massacre, uma tortura. Sem saber, eu a humilhava com minha indiferença.

Escutei o soluçar inconfundível que acompanha lágrimas. O som do choro reverberou em meu peito. A pedra que eu trazia no lugar do coração trincou. Se partiu. E de dentro dela começaram a gotejar todos os sentimentos que estavam presos desde o começo do dia. E depois, como uma enxurrada, saíram os sentimentos que estavam entalados há mais tempo, muito mais tempo. Percebi o quanto eu ansiava por coisas que nunca eram possíveis naquela vida que levava.

Decidi que queria ficar sozinho. De verdade. Queria me aventurar. Ser livre.

Tentei explicar o que sentia, que a queria bem mas queria ficar só. Abracei aquela mulher que agora me parecia tão frágil. Ela relutou, mas teve de aceitar minha decisão. Fizemos amor como se fosse despedida.

Ao terminar, cansados, entramos no nevoeiro que divide o sono e a vigília. A última coisa que me lembro é ela perguntar se eu sentia algum cheiro estranho. Respondi com um abraço e disse que deveríamos dormir.

Tive um sonho muito desconfortável. Uma paisagem de céu vermelho e rochas escuras, cortada por um rio. Havia um barco. O barqueiro era um mendigo com cabeça de cachorro. A cabeça atropelada do cachorrinho que cruzou meu caminho no início da tarde. Com a voz berm clara ele me pedia uma moeda, mas eu não tinha. Não poderia cruzar o rio.

Tentei acordar daquele sonho estranho. Tentei me mover. Tentei falar. Tentei ver. Mas havia uma escuridão muito mais densa que o sono.

Minha mulher tinha razão. Aquele cheiro era estranho. O gás da cozinha havia ficado aberto. Eu havia sufocado. Estava morto.

30 outubro 2006

Cachorro Morto - Parte 2

Hoje meu coração é de pedra, atropelei um cachorro na avenida.
Mas isso não me faz sentir menos vulnerável.

Agora já é noite. Estou no trânsito, acelerando, freando, acelerando, freando, faz quase duas horas. Na Marginal Pinheiros, mais uma vez. É tão devagar que já é hora de atender aos compromissos sociais. Festa de aniversário, happy hour, lançamento de livro, vernissage em galeria - faz diferença?

Fiquei preso numa conversa desinteressante, que uma mulher me contou sobre uma viagem que eu não queria saber. Ela contava os detalhes e me cutucava no braço ou no ombro.

Eu odeio que me toquem. Afora os cumprimentos habituais nas horas habituais - apertos de mão, abraços e beijos no rosto - não sou muito chegado à proximidadde física. A não ser, é claro, de pessoas muito especiais, em momentos muito especiais.

Mas não era esse o caso.

Eu tentei me defender. Escondi o braço atrás do corpo. Foi muito pior, os toques - quase golpes àquela altura - passaram a me atingir no peito e na barriga. O desconforto da situação me subiu ao rosto. Ficou evidente que algo não me agradava. Com as costas voltadas para a parede num bar barulhento percebi que não havia saída fácil. Estava encurralado.

Sufocado.

Sob o pretexto de comprar cigarros pedi licença e saí do bar. Caminhei lentamente até uma padaria próxima. Um mendigo falou comigo. Era um mendigo jovem, negro, de rosto bonito e voz clara. "Me dá uma esmola?" Eu estranhei muito o uso do termo esmola. geralmente se escuta "me dá uma moeda" ou "me dá uma forcinha?" Neguei o dinheiro.

Entrei na padaria e comprei meu Marlboro vermelho. Na saída um pequeno tumulto havia tomado a rua, muitas vozes no meio do barulho do trânsito. Alguém havia sido atropelado. Lembrei do cachorrinho. Escutei alguém dizer que o mendigo tinha se jogado embaixo de um ônibus. Não fui olhar.

Voltei ao bar. Me sentei numa mesa vazia qualquer. Em silêncio de novo. Com muito esforço consegui fazer minha mente ficar em branco.

A mulher dos cutucões voltou. Protegido pela distância que a mesa nos obrigava a manter me senti melhor. Mas não o suficiente para falar. Acho que ela deve ter tentado conversar comigo por quase dez minutos antes de me perguntar se eu me sentia bem.

Abri a boca. Não sei o que disse. Levantei e fui embora.

Pela terceira vez no dia guiava em alta velocidade na Marginal Pinheiros. Folhas secas, pedaços de papel e outras coisas se misturavam em torvelinhos no vento. Os pequenos rodamoinhos de sujeira corriam mais que meu carro. Aquele cheiro que antecede a chuva era mais forte que o fedor do rio.

Mas eu nunca chegaria a ver aquela chuva cair.

29 outubro 2006

Cachorro Morto - Parte 1

Acordei no meio de um pesadelo. Me atracava com um inimigo mortal. Eu pulava no pescoço dele. Minhas unhas como cacos de vidro na garganta. Dei um pulo na cama, em direção à jugular da minha mulher, que despertou assustada com meu sonambulismo assassino. Tomamos café da manhã.

Fui com ela até uma emissora de TV, num distrito industrial, muito distante. Nos perdemos. Conheci o Rodoanel. Peguei trânsito no final da Anhangüera.

Resolvi emendar os compromissos e tive de emendar viagens. Grandes distâncias. Extremos da cidade.

Percorri toda a Marginal Pinheiros sem pôr o pé no freio. Sol e asfalto, calor e cimento. Driblando caminhões tomei o caminho da esquerda, Guido Caloi. Direita na M'boi Mirim, em direção ao Jardim Ângela. Apesar de ser sexta-feira, quase duas da tarde, poucos carros apareceram para dificultar o meu caminho.

Mesmo assim, já eram quase três horas guiando.

No corredor de ônibus um biarticulado parou no ponto. Um cachorrinho saiu correndo logo à frente, numa tentativa fatal de atravassar a rua. Meti o pé no freio e joguei o carro para a direita. O pequeno animal fez suas últimas - e infelizes - escolhas. Correu de um lado para o outro. O barulho dos pneus gastando na rua. Brevemente interrompido duas vezes por um som surdo. Scriiiiii toc toc scriiiiii.

Uma sensação péssima. Pressão no estômago. Olhei pelo retrovisor, e reconheci o vulto escuro de um cachorro dançando mais de um palmo acima do chão em violentas convulsões.

Parei o carro em algum lugar - uns 20 metros depois - já tentando mentalizar que era apenas um cachorro, num acidente, não era culpa minha, e se fosse, não seria muita coisa, afinal. era só um cachorrinho.

Desci do carro acendendo um cigarro. Calafrios faziam minhas mãos tremer. Ânsia de vômito.

Olhei e vi duas crianças - um menino e uma menina - e uma moça de uns vinte anos em volta do animalzinho agonizante. O menino, que provavelmente havia arrastado o bicho do meio da avenida até a calçada, pôs a mão no peito do coitado.

O corpinho aparentemente intacto, os pêlos ainda tentando me convencer que eram bonitos e saudáveis. Percebi as tetinhas - era uma cadelinha. Também notei os sangue escorrendo do ouvido. E os olhinhos para fora das órbitas. Entendi que havia acertado a cabeça.

"O coração parou de bater" - disse o menino. Fiquei em silêncio. Muito silêncio. Não ouvi ninguém chorar. Não ouvi o barulhos dos carros, ônibus e caminhões na avenida. Não ouvi nem meus pensamentos.

24 outubro 2006

Na mão dos outros

Só gosto do que está na mão dos outros.
Desde criança.
Os brinquedos dos amiguinhos.
A bola nova do moleque do prédio.
A bicicleta do boyzinho da escola.
A namorada dos amigos.
A noiva dos primos
A mulher do vizinho.

Ah, se me derem uma chance...

Cafeína Technicolor

19 outubro 2006

Pãezinhos

Resolvi comprar pão naquele mercado porque era o único lugar que vendia pão realmente fresco após as nove da noite. Fresco mesmo, a última fornada saía quinze para as nove. O inconveniente era que o mercado era grande, com muitos corredores, muita gente. Mesmo naquele domingo frio, mesmo naquela hora, mesmo com aquela chuva. 

Entrei no estacionamento do subsolo e o segurança apenas acenou, em lugar de me pedir para parar, anotar a minha placa e me entregar o canhoto como era de costume. Não precisei parar, então acelerei e fiz a curva em direção às vagas. Pisei forte no freio, para ouvir gritos e uns xingamentos. Quase havia atropelado um casal com suas compras. Como eu podia não os haver visto?! A única justificativa que eu pude dar a mim mesmo, no meio do susto, era a última semana de trabalho alucinada, sem horários para acabar, dia após dia, e que ainda se estenderia pela próxima semana. Parei o carro já apontando para a saída. 

Assim que entrei no mercado, sem saber exatamente porquê, peguei um carrinho, daqueles pequenos. Me dei conta e troquei por uma cesta, que acabei abandonando na seção de frutas e verduras. Ainda atordoado (pela freada brusca ou pela falta de sono - não sei) caminhei pelos corredores em passos rápidos e embaralhados, sem pensar em absolutamente nada, observando as gôndolas cheias de produtos que não me diziam muita coisa, até que me lembrei do pão. O pão! Minha única razão para ter vindo aqui! 

Ao mudar de direção bruscamente esbarrei e quase derrubei uma mulherzinha que fazia compras carregando um bebê e acompanhada de uma filha. Tudo nela me causava estranhamento, sua cabeça desproporcional à altura, a testa larga e alta, os olhos separados demais, a pele do rosto marcada, a boca cheia de dentes tortos, nariz e queixo pontudos. Ela simplesmente me olhou e não disse nada. Murmurei desculpas rapidamente e segui, com os pensamentos congestionados, para os fundos do mercado, onde ficam os pães. 

Fui direto para a cesta de pães frescos. Enfiei minhas mãos ávidas nos pãezinhos ainda quentes, apenas para receber olhares condenatórios de dois senhores de meia idade, que deram voz à indignação.  

De onde eles apareceram?? Será que eu não havia notado a fila? Ou eles simplesmente se achavam no direito de se servirem antes de mim por serem mais velhos? Resolvi pedir desculpas mais uma vez. Me justifiquei - "Desculpem-me, eu sou muito apressado e às vezes me descontrolo" - argumento que não pareceu comover nenhum dos homens. 

A fila andou, peguei meus pães, e fui para o caixa. Na minha frente um casal jovem pagava uma pequena compra, de vinho, cerveja e chocolates. Houve algum imprevisto, com o cartão, eu acho, chamaram a gerente, uma demora que para mim foi excruciante, deixei escapar um suspiro estranhamente agressivo. Enquanto esperavam o problema ser resolvido, a moça cochichou alguma coisa para o namorado, enquanto me olhava vagamente. Talvez eu esteja enganado, mas tenho quase certeza de ter reconhecido um misto de escárnio e desaprovação naqueles olhos. 

Percebi um movimento rápido atrás de mim. A mulher em quem eu havia esbarrado antes de comprar os pães estava ali. A filha reclamando, pedindo para a mãe comprar algum doce. Provavelmente para deixar bem claro que naquela noite não haveria doce algum, a mãe começou a colocar as compras na esteira do caixa com vigor. Plaft - um pacote de macarrão. "Mãe, uma balinha?" - plaft - uma lata de azeite. 

Achei melhor olhar para baixo e apenas escutar o mudo debate de mãe e filha, evitando o contato visual. Na terceira rodada de pedidos seguidos do barulho meio surdo que os produtos postos com força excessiva na esteira fazem, um pote de meio quilo de margarina apareceu disposto exatamente em cima do meu saco de pães. Que inferno! Essa mulher me parecia um um pequeno demônio agora. Com sua pequenas filhas-demônio, amassando meu pão como castigo por eu ter esbarrado nela. 

"Boa noite" - disse mecanicamente a moça do caixa, interrompendo meus pensamentos. O casal da frente já havia ido embora. "Essas compras também são do senhor?" - perguntou, apontando para a margarina, o azeite e o macarrão. "Não, só os pãezinhos, obrigado". Paguei rapidamente, e fui em direção ao estacionamento no piso inferior.

Sentia pressa. Desci afobado os lances da escadaria, que formavam uma espiral quadrada. Tive a impressão de ter descido vários andares, e não apenas um. A garagem estava muito mais vazia, com um setor já escuro, sem iluminação. Mas meu carro estava na parte onde as lâmpadas ainda estavam acesas. Corri, abri a porta, joguei a sacola com os pães no banco de trás e acelerei, cantando os pneus - meu deus, porque tanta pressa? Tudo isso é apenas medo irracional daquela mulher com a testa larga e cara de diabo? 

Mais uma freada. Desta vez era outro carro, com o casal que estava na minha frente na fila do caixa. Escutei mais um sonoro palavrão, que eu ignorei, pois via o portão do estacionamento aberto na minha frente. Acenei para o segurança, saí do estacionamento, fiz uma curva á à direita e olhei no retrovisor. Tive certeza de que aquele casal agora me seguia.  
Medo? Sensações de sufocamento, pressa e ansiedade. Pressentia a punição diabólica. Mas quem seria? 

A moça que estava na minha frente no caixa? Ela tinha um olhar ameaçador, era verdade. 

A mãe diaba e suas filhas demônio? O medo que elas me inspiravam vinha de dentro do estômago e me gelava a espinha. 

Ou aqueles senhores da fila do pão? Não, eles não fariam isso, eu acho. 

Acelerei mais, furei um par de sinais vermelhos, ultrapassei irresponsavelmente alguns carros, estacionei de qualquer maneira na frente da minha casa. Destranquei, entrei, tranquei o portão. Atravessei o corredor a passos largos. Destranquei, entrei, tranquei a porta. Larguei as compras na mesa da cozinha, me sentei numa cadeira. Senti um cheiro acre, parecido com o cheiro dos hospitais.  

Precisava parar, relaxar. Acendi um cigarro. Abri o saco de pães. Estavam todos amassados, com certeza por causa da margarina que havia sido atirada sobre eles. Perdi o apetite. Fui me deitar horas depois, sabendo que teria menos tempo que o necessário para dormir até que meu despertador tocasse.

Cheque

Foi num daqueles dias de deliciosa fúria.

O prazo de entrega daquele freela para um cliente novo estourando. Noites viradas. Trânsito. Contas a pagar. Todos os exageros recentemente cometidos. O abuso de cafeína e bebidas alcoólicas. Os gostos extravagantes e dispendiosos. A falta de planejamento. As baladas no meio da semana. Tudo. Agora eu sou stress, ansiedade, mania, paranóia e uma conta bancária perigosamente tendendo ao zero.

Mas é véspera do feriado de 12 de outubro, duas da tarde, e brilha uma luz no céu. Dia de uma santa de uma religião que não é a minha. Mas caí nas graças dela com certeza, porque meu cliente resolveu pagar a equipe antes do fim de semana prolongado.

No meu caso o pagamento foi um cheque nominal e não cruzado. Isso exigiria movimentos ousados e certeiros para garantir um feriado feliz.

Eu teria que ir até o Banco Santander, trocar o cheque, me dirigir ao Banco Real - o meu banco - e depositar a grana. Somente assim teria fundos para o que quer que fosse nos próximos dias. Escolhi as agências da Pedroso de Morais, em Pinheiros, porque ficam a uma distância de 30 metros uma da outra.

Parei o carro na agência do Real, que é a única que tem estacionamento. Caminhei tranquilamente até a agência do Santander e entrei na fila do caixa. Chegou minha vez e - uau - adrenalina, ansiedade. Mal consegui abrir a boca, apenas mostrei o cheque e murmurei alguma coisa que nem eu mesmo entendi.

A moça tirou vários chumaços de dinheiro do caixa, todo mundo podia ver. Comecei a sentir frio na barriga. Ela contou ostetativamente, me estendeu a pilha de cédulas e perguntou se eu queria contar. Não lembro de ter respondido, mas provavelmente contei as notas, certamente com as mãos tremendo.Também não me recordo de ter agradecido ou assinado algum papelzinho. Acho que simplesmente agarrei os volumosos bolos de notas de 50, meti no bolso e comecei a suar frio.

O meu banco ficava a menos de 30 metros de onde eu estava, mas só de pensar de sair de perto dos seguranças armados me deu vertigem. Aproveitei meus últimos momentos de segurança para vasculhar com os olhos o saguão do banco em busca de alguma pessoa me observando de maneira suspeita.

Atravessei a porta giratória blindada inspirando ar, olhar fixo na porta de vidro da saída. Terminei o giro e apertei o passo. Um, dois, três, quatro passos. Estou na rua. Vento, barulho, fumaça - não sinto absolutamente nenhum deles. Antes que eu possa perceber dou um pulo e me ponho a correr - braços agitados como um louco - em direção a agência de meu banco.

Corri como se fosse para salvar a minha própria vida. E acho que talvez isso não fosse exagero, porque eu não deixaria ninguém tocar na minha grana e no caso de um assalto provavelmente estaria disposto à levar um tiro na cabeça antes de entregar o dinheiro.

Cheguei na agência bufando, arremessei todos os meus pertences (celular, chaves, carteira, isqueiro, cigarro, tic tac) na caixinha de plástico e me atirei na porta giratória. Sorri pro negão de arma em punho e com colete a prova de balas que estava fazendo o turno de vigia. Ah, como me senti bem!

Esperei minha vez de ser atendido. Depositei a grana. Sorri aliviado.

Cantuccini

Aquele docinho que acompanha o café.

09 outubro 2006

Briga

De manhã ele brigou com a mulher.
Gritou impropérios, como não costumava fazer.
Mandou-a embora, quebrou os vasos, atirou os quadros ao chão.
Enlouquecido, esqueceu-se de comer.
Se deitou e dormiu um sono difícil até a tarde.

Quando despertou, a cabeça girando, não sabia dizer se havia sonhado
Caminhou pela casa, e escutava apenas o eco dos próprios passos.
Com os olhos baixos, viu a luz da janela da sala refletir palidamente no chão que há muito não era encerado.
A cozinha parecia mais branca, iluminada.
O banheiro, mais frio.

Quando se olhou no espelho, não se reconheceu.
A barba por fazer, o cabelo estranhamente arrumado.
Olhou de novo. Parecia alguém, um outro alguém, que ele não conhecia mas já havia visto em algum lugar.
Pensou nos porquês de tudo aquilo.
Se deu conta de que havia destruído muito mais que vasos e quadros.
Muito mais que seu relacionamento.

Teria de começar tudo outra vez.
Outros quadros, outros vasos e outra mulher.
Teria de sair em busca de tantas coisas.
Escolheria retratos? Bromélias? Uma mulher ruiva?

Raspou a barba, mas deixou um bigode.
Um pouco ridículo, um pouco falho, mas era um bigode.
Remendou os quadros.
Limpou a terra dos vasos.
E saiu em busca da mesma mulher.

05 outubro 2006

Tentativa de manter uma rotina saudável

Após consumir um pacote de café de 500 gramas em uma semana minha madíbula começou a doer.
Determinado a acabar com o sofrimento, decidi prestar mais atenção no dia-a-dia e controlar a ingestão de substâncias erradas nas horas erradas. Isso requer muita força de vontade, especialmente quando seus horários de trabalho não são usuais e nem seguem nenhuma regra aparente.
Acompanhe os acontecimentos e os resultados.

***

(neste ponto eu tinha esperanças de domar o meu problema, resolvi não tomar mais café)

Quinta
09:00 - Pãozinho com manteiga e mel, sinto o cheiro do café, decido que cheiro de café não é benéfico para mim
09:15 - Dois cigarros
09:30 - Mais um cigarro, o tempo não passa nunca
14:00 - Coxinha, cigarro
17:00 - Lanche na padoca, dois cigarros
22:00 - Diversos destilados, cerveja e cigarros em conversa mal-humorada com amigos madrugada adentro, não lembro o que comi

(estou visivelmente azedo, apesar da sensação física de bem-estar alcançada através da ausência de dor na mandíbula)

Sexta
08:30 - Pãozinho, requeijão, água (eu odeio leite)
10:00 - Dois cigarros
14:00 - Coxinha de bar, mais dois cigarros
16:00 - Mais dois cigarros
19:00 - Encontro a Bel, brigo sem ter motivo, pedimos pizza
21:00 - Três beques
23:30 - Odeio a TV e os DVD's, odeio o YouTube, vou dormir

(a vida sem café é dura, mas eu ainda resisto)

Sábado
11:30 - Misto quente de padaria, as mãos tremem, mas não tomo café
12:30 - Mais uma briga sem razão com a Bel, estou desperdiçando as fichas para a hora que tiver que falar sério
15:00 - Almoço no bar, delícia! Um cigarro
22:00 - Fico em casa, não tive saco pra falar com ninguém no telefone, dois beques

(o horizonte é cinza, a Bel é uma chata, meus amigos são uns malas, eu sempre tenho razão em tudo)

Domingo
11:15 - Pãozinho, manteiga e mel, água
12:30 - Troca de farpas infrutífera com a Bel
14:00 - Almoço com os pais, tomo um espresso
15:30 - Sobremesa, mais um espresso
16:00 - Ligo para todos os amigos e convido para virem jejuar comigo
17:45 - Começa o jejum de Yom Kippur

(começo o dia do Perdão em estado de euforia)

Segunda
18:45 - Pãozinho com requeijão
20:45 - Lauta refeição na casa dos tios
23:30 - Tapa na pantera

(termino o jejum mais fácil de todos os tempos, certo de que minha alma é pura)

Terça
08:00 - Pão com manteiga, mortadela, uma xícara de café
14:00 - Quilão, sem café nem cigarros
16:00 - Dois espressos
18:00 - Um espresso
21:00 - Pãozinho e frios, cerveja, mais um bequinho
23:00 - Faço as pazes com a Bel

(sou um novo homem, consigo conciliar relacionamentos, tenho muita energia, amo todos e todos me amam)

Quarta
11:45 - Pão com manteiga e mel, duas xícaras de café
14:30 - Um beirute, um café
21:00 - Pizza, cerveja, café
23:00 - Só uns peguinhas, um iogurte, trabalho até a madrugada

(de volta ao normal)

***

Conclusão:

Cafeína não é de deixar tirar conclusão.
Cafeína é ação. E reação também.
Cafeína sempre tem razão em tudo.

27 setembro 2006

Qual é a vez que a gente nunca esquece mesmo?

Ok, vou começar meu blog.
...
O que eu escrevo?
...
Por essas e outras que eu prefiro cafeína à todas as outras drogas conhecidas pela humanidade.
Com a dose certa de cafeína eu não hesitaria, já teria escrito o post todo.
Bem humorado ou ranzinza, escreveria alguma coisa forte... ou um poeminha?
Não sei, porque não estou sob o efeito dela, mas não estaria tão lesado. Isso é certo!
...
Peraí
...
Pronto, voltei com um cafézinho!
Agora sim, sou um gênio!