30 outubro 2006

Cachorro Morto - Parte 2

Hoje meu coração é de pedra, atropelei um cachorro na avenida.
Mas isso não me faz sentir menos vulnerável.

Agora já é noite. Estou no trânsito, acelerando, freando, acelerando, freando, faz quase duas horas. Na Marginal Pinheiros, mais uma vez. É tão devagar que já é hora de atender aos compromissos sociais. Festa de aniversário, happy hour, lançamento de livro, vernissage em galeria - faz diferença?

Fiquei preso numa conversa desinteressante, que uma mulher me contou sobre uma viagem que eu não queria saber. Ela contava os detalhes e me cutucava no braço ou no ombro.

Eu odeio que me toquem. Afora os cumprimentos habituais nas horas habituais - apertos de mão, abraços e beijos no rosto - não sou muito chegado à proximidadde física. A não ser, é claro, de pessoas muito especiais, em momentos muito especiais.

Mas não era esse o caso.

Eu tentei me defender. Escondi o braço atrás do corpo. Foi muito pior, os toques - quase golpes àquela altura - passaram a me atingir no peito e na barriga. O desconforto da situação me subiu ao rosto. Ficou evidente que algo não me agradava. Com as costas voltadas para a parede num bar barulhento percebi que não havia saída fácil. Estava encurralado.

Sufocado.

Sob o pretexto de comprar cigarros pedi licença e saí do bar. Caminhei lentamente até uma padaria próxima. Um mendigo falou comigo. Era um mendigo jovem, negro, de rosto bonito e voz clara. "Me dá uma esmola?" Eu estranhei muito o uso do termo esmola. geralmente se escuta "me dá uma moeda" ou "me dá uma forcinha?" Neguei o dinheiro.

Entrei na padaria e comprei meu Marlboro vermelho. Na saída um pequeno tumulto havia tomado a rua, muitas vozes no meio do barulho do trânsito. Alguém havia sido atropelado. Lembrei do cachorrinho. Escutei alguém dizer que o mendigo tinha se jogado embaixo de um ônibus. Não fui olhar.

Voltei ao bar. Me sentei numa mesa vazia qualquer. Em silêncio de novo. Com muito esforço consegui fazer minha mente ficar em branco.

A mulher dos cutucões voltou. Protegido pela distância que a mesa nos obrigava a manter me senti melhor. Mas não o suficiente para falar. Acho que ela deve ter tentado conversar comigo por quase dez minutos antes de me perguntar se eu me sentia bem.

Abri a boca. Não sei o que disse. Levantei e fui embora.

Pela terceira vez no dia guiava em alta velocidade na Marginal Pinheiros. Folhas secas, pedaços de papel e outras coisas se misturavam em torvelinhos no vento. Os pequenos rodamoinhos de sujeira corriam mais que meu carro. Aquele cheiro que antecede a chuva era mais forte que o fedor do rio.

Mas eu nunca chegaria a ver aquela chuva cair.

29 outubro 2006

Cachorro Morto - Parte 1

Acordei no meio de um pesadelo. Me atracava com um inimigo mortal. Eu pulava no pescoço dele. Minhas unhas como cacos de vidro na garganta. Dei um pulo na cama, em direção à jugular da minha mulher, que despertou assustada com meu sonambulismo assassino. Tomamos café da manhã.

Fui com ela até uma emissora de TV, num distrito industrial, muito distante. Nos perdemos. Conheci o Rodoanel. Peguei trânsito no final da Anhangüera.

Resolvi emendar os compromissos e tive de emendar viagens. Grandes distâncias. Extremos da cidade.

Percorri toda a Marginal Pinheiros sem pôr o pé no freio. Sol e asfalto, calor e cimento. Driblando caminhões tomei o caminho da esquerda, Guido Caloi. Direita na M'boi Mirim, em direção ao Jardim Ângela. Apesar de ser sexta-feira, quase duas da tarde, poucos carros apareceram para dificultar o meu caminho.

Mesmo assim, já eram quase três horas guiando.

No corredor de ônibus um biarticulado parou no ponto. Um cachorrinho saiu correndo logo à frente, numa tentativa fatal de atravassar a rua. Meti o pé no freio e joguei o carro para a direita. O pequeno animal fez suas últimas - e infelizes - escolhas. Correu de um lado para o outro. O barulho dos pneus gastando na rua. Brevemente interrompido duas vezes por um som surdo. Scriiiiii toc toc scriiiiii.

Uma sensação péssima. Pressão no estômago. Olhei pelo retrovisor, e reconheci o vulto escuro de um cachorro dançando mais de um palmo acima do chão em violentas convulsões.

Parei o carro em algum lugar - uns 20 metros depois - já tentando mentalizar que era apenas um cachorro, num acidente, não era culpa minha, e se fosse, não seria muita coisa, afinal. era só um cachorrinho.

Desci do carro acendendo um cigarro. Calafrios faziam minhas mãos tremer. Ânsia de vômito.

Olhei e vi duas crianças - um menino e uma menina - e uma moça de uns vinte anos em volta do animalzinho agonizante. O menino, que provavelmente havia arrastado o bicho do meio da avenida até a calçada, pôs a mão no peito do coitado.

O corpinho aparentemente intacto, os pêlos ainda tentando me convencer que eram bonitos e saudáveis. Percebi as tetinhas - era uma cadelinha. Também notei os sangue escorrendo do ouvido. E os olhinhos para fora das órbitas. Entendi que havia acertado a cabeça.

"O coração parou de bater" - disse o menino. Fiquei em silêncio. Muito silêncio. Não ouvi ninguém chorar. Não ouvi o barulhos dos carros, ônibus e caminhões na avenida. Não ouvi nem meus pensamentos.

24 outubro 2006

Na mão dos outros

Só gosto do que está na mão dos outros.
Desde criança.
Os brinquedos dos amiguinhos.
A bola nova do moleque do prédio.
A bicicleta do boyzinho da escola.
A namorada dos amigos.
A noiva dos primos
A mulher do vizinho.

Ah, se me derem uma chance...

Cafeína Technicolor

19 outubro 2006

Pãezinhos

Resolvi comprar pão naquele mercado porque era o único lugar que vendia pão realmente fresco após as nove da noite. Fresco mesmo, a última fornada saía quinze para as nove. O inconveniente era que o mercado era grande, com muitos corredores, muita gente. Mesmo naquele domingo frio, mesmo naquela hora, mesmo com aquela chuva. 

Entrei no estacionamento do subsolo e o segurança apenas acenou, em lugar de me pedir para parar, anotar a minha placa e me entregar o canhoto como era de costume. Não precisei parar, então acelerei e fiz a curva em direção às vagas. Pisei forte no freio, para ouvir gritos e uns xingamentos. Quase havia atropelado um casal com suas compras. Como eu podia não os haver visto?! A única justificativa que eu pude dar a mim mesmo, no meio do susto, era a última semana de trabalho alucinada, sem horários para acabar, dia após dia, e que ainda se estenderia pela próxima semana. Parei o carro já apontando para a saída. 

Assim que entrei no mercado, sem saber exatamente porquê, peguei um carrinho, daqueles pequenos. Me dei conta e troquei por uma cesta, que acabei abandonando na seção de frutas e verduras. Ainda atordoado (pela freada brusca ou pela falta de sono - não sei) caminhei pelos corredores em passos rápidos e embaralhados, sem pensar em absolutamente nada, observando as gôndolas cheias de produtos que não me diziam muita coisa, até que me lembrei do pão. O pão! Minha única razão para ter vindo aqui! 

Ao mudar de direção bruscamente esbarrei e quase derrubei uma mulherzinha que fazia compras carregando um bebê e acompanhada de uma filha. Tudo nela me causava estranhamento, sua cabeça desproporcional à altura, a testa larga e alta, os olhos separados demais, a pele do rosto marcada, a boca cheia de dentes tortos, nariz e queixo pontudos. Ela simplesmente me olhou e não disse nada. Murmurei desculpas rapidamente e segui, com os pensamentos congestionados, para os fundos do mercado, onde ficam os pães. 

Fui direto para a cesta de pães frescos. Enfiei minhas mãos ávidas nos pãezinhos ainda quentes, apenas para receber olhares condenatórios de dois senhores de meia idade, que deram voz à indignação.  

De onde eles apareceram?? Será que eu não havia notado a fila? Ou eles simplesmente se achavam no direito de se servirem antes de mim por serem mais velhos? Resolvi pedir desculpas mais uma vez. Me justifiquei - "Desculpem-me, eu sou muito apressado e às vezes me descontrolo" - argumento que não pareceu comover nenhum dos homens. 

A fila andou, peguei meus pães, e fui para o caixa. Na minha frente um casal jovem pagava uma pequena compra, de vinho, cerveja e chocolates. Houve algum imprevisto, com o cartão, eu acho, chamaram a gerente, uma demora que para mim foi excruciante, deixei escapar um suspiro estranhamente agressivo. Enquanto esperavam o problema ser resolvido, a moça cochichou alguma coisa para o namorado, enquanto me olhava vagamente. Talvez eu esteja enganado, mas tenho quase certeza de ter reconhecido um misto de escárnio e desaprovação naqueles olhos. 

Percebi um movimento rápido atrás de mim. A mulher em quem eu havia esbarrado antes de comprar os pães estava ali. A filha reclamando, pedindo para a mãe comprar algum doce. Provavelmente para deixar bem claro que naquela noite não haveria doce algum, a mãe começou a colocar as compras na esteira do caixa com vigor. Plaft - um pacote de macarrão. "Mãe, uma balinha?" - plaft - uma lata de azeite. 

Achei melhor olhar para baixo e apenas escutar o mudo debate de mãe e filha, evitando o contato visual. Na terceira rodada de pedidos seguidos do barulho meio surdo que os produtos postos com força excessiva na esteira fazem, um pote de meio quilo de margarina apareceu disposto exatamente em cima do meu saco de pães. Que inferno! Essa mulher me parecia um um pequeno demônio agora. Com sua pequenas filhas-demônio, amassando meu pão como castigo por eu ter esbarrado nela. 

"Boa noite" - disse mecanicamente a moça do caixa, interrompendo meus pensamentos. O casal da frente já havia ido embora. "Essas compras também são do senhor?" - perguntou, apontando para a margarina, o azeite e o macarrão. "Não, só os pãezinhos, obrigado". Paguei rapidamente, e fui em direção ao estacionamento no piso inferior.

Sentia pressa. Desci afobado os lances da escadaria, que formavam uma espiral quadrada. Tive a impressão de ter descido vários andares, e não apenas um. A garagem estava muito mais vazia, com um setor já escuro, sem iluminação. Mas meu carro estava na parte onde as lâmpadas ainda estavam acesas. Corri, abri a porta, joguei a sacola com os pães no banco de trás e acelerei, cantando os pneus - meu deus, porque tanta pressa? Tudo isso é apenas medo irracional daquela mulher com a testa larga e cara de diabo? 

Mais uma freada. Desta vez era outro carro, com o casal que estava na minha frente na fila do caixa. Escutei mais um sonoro palavrão, que eu ignorei, pois via o portão do estacionamento aberto na minha frente. Acenei para o segurança, saí do estacionamento, fiz uma curva á à direita e olhei no retrovisor. Tive certeza de que aquele casal agora me seguia.  
Medo? Sensações de sufocamento, pressa e ansiedade. Pressentia a punição diabólica. Mas quem seria? 

A moça que estava na minha frente no caixa? Ela tinha um olhar ameaçador, era verdade. 

A mãe diaba e suas filhas demônio? O medo que elas me inspiravam vinha de dentro do estômago e me gelava a espinha. 

Ou aqueles senhores da fila do pão? Não, eles não fariam isso, eu acho. 

Acelerei mais, furei um par de sinais vermelhos, ultrapassei irresponsavelmente alguns carros, estacionei de qualquer maneira na frente da minha casa. Destranquei, entrei, tranquei o portão. Atravessei o corredor a passos largos. Destranquei, entrei, tranquei a porta. Larguei as compras na mesa da cozinha, me sentei numa cadeira. Senti um cheiro acre, parecido com o cheiro dos hospitais.  

Precisava parar, relaxar. Acendi um cigarro. Abri o saco de pães. Estavam todos amassados, com certeza por causa da margarina que havia sido atirada sobre eles. Perdi o apetite. Fui me deitar horas depois, sabendo que teria menos tempo que o necessário para dormir até que meu despertador tocasse.

Cheque

Foi num daqueles dias de deliciosa fúria.

O prazo de entrega daquele freela para um cliente novo estourando. Noites viradas. Trânsito. Contas a pagar. Todos os exageros recentemente cometidos. O abuso de cafeína e bebidas alcoólicas. Os gostos extravagantes e dispendiosos. A falta de planejamento. As baladas no meio da semana. Tudo. Agora eu sou stress, ansiedade, mania, paranóia e uma conta bancária perigosamente tendendo ao zero.

Mas é véspera do feriado de 12 de outubro, duas da tarde, e brilha uma luz no céu. Dia de uma santa de uma religião que não é a minha. Mas caí nas graças dela com certeza, porque meu cliente resolveu pagar a equipe antes do fim de semana prolongado.

No meu caso o pagamento foi um cheque nominal e não cruzado. Isso exigiria movimentos ousados e certeiros para garantir um feriado feliz.

Eu teria que ir até o Banco Santander, trocar o cheque, me dirigir ao Banco Real - o meu banco - e depositar a grana. Somente assim teria fundos para o que quer que fosse nos próximos dias. Escolhi as agências da Pedroso de Morais, em Pinheiros, porque ficam a uma distância de 30 metros uma da outra.

Parei o carro na agência do Real, que é a única que tem estacionamento. Caminhei tranquilamente até a agência do Santander e entrei na fila do caixa. Chegou minha vez e - uau - adrenalina, ansiedade. Mal consegui abrir a boca, apenas mostrei o cheque e murmurei alguma coisa que nem eu mesmo entendi.

A moça tirou vários chumaços de dinheiro do caixa, todo mundo podia ver. Comecei a sentir frio na barriga. Ela contou ostetativamente, me estendeu a pilha de cédulas e perguntou se eu queria contar. Não lembro de ter respondido, mas provavelmente contei as notas, certamente com as mãos tremendo.Também não me recordo de ter agradecido ou assinado algum papelzinho. Acho que simplesmente agarrei os volumosos bolos de notas de 50, meti no bolso e comecei a suar frio.

O meu banco ficava a menos de 30 metros de onde eu estava, mas só de pensar de sair de perto dos seguranças armados me deu vertigem. Aproveitei meus últimos momentos de segurança para vasculhar com os olhos o saguão do banco em busca de alguma pessoa me observando de maneira suspeita.

Atravessei a porta giratória blindada inspirando ar, olhar fixo na porta de vidro da saída. Terminei o giro e apertei o passo. Um, dois, três, quatro passos. Estou na rua. Vento, barulho, fumaça - não sinto absolutamente nenhum deles. Antes que eu possa perceber dou um pulo e me ponho a correr - braços agitados como um louco - em direção a agência de meu banco.

Corri como se fosse para salvar a minha própria vida. E acho que talvez isso não fosse exagero, porque eu não deixaria ninguém tocar na minha grana e no caso de um assalto provavelmente estaria disposto à levar um tiro na cabeça antes de entregar o dinheiro.

Cheguei na agência bufando, arremessei todos os meus pertences (celular, chaves, carteira, isqueiro, cigarro, tic tac) na caixinha de plástico e me atirei na porta giratória. Sorri pro negão de arma em punho e com colete a prova de balas que estava fazendo o turno de vigia. Ah, como me senti bem!

Esperei minha vez de ser atendido. Depositei a grana. Sorri aliviado.

Cantuccini

Aquele docinho que acompanha o café.

09 outubro 2006

Briga

De manhã ele brigou com a mulher.
Gritou impropérios, como não costumava fazer.
Mandou-a embora, quebrou os vasos, atirou os quadros ao chão.
Enlouquecido, esqueceu-se de comer.
Se deitou e dormiu um sono difícil até a tarde.

Quando despertou, a cabeça girando, não sabia dizer se havia sonhado
Caminhou pela casa, e escutava apenas o eco dos próprios passos.
Com os olhos baixos, viu a luz da janela da sala refletir palidamente no chão que há muito não era encerado.
A cozinha parecia mais branca, iluminada.
O banheiro, mais frio.

Quando se olhou no espelho, não se reconheceu.
A barba por fazer, o cabelo estranhamente arrumado.
Olhou de novo. Parecia alguém, um outro alguém, que ele não conhecia mas já havia visto em algum lugar.
Pensou nos porquês de tudo aquilo.
Se deu conta de que havia destruído muito mais que vasos e quadros.
Muito mais que seu relacionamento.

Teria de começar tudo outra vez.
Outros quadros, outros vasos e outra mulher.
Teria de sair em busca de tantas coisas.
Escolheria retratos? Bromélias? Uma mulher ruiva?

Raspou a barba, mas deixou um bigode.
Um pouco ridículo, um pouco falho, mas era um bigode.
Remendou os quadros.
Limpou a terra dos vasos.
E saiu em busca da mesma mulher.

05 outubro 2006

Tentativa de manter uma rotina saudável

Após consumir um pacote de café de 500 gramas em uma semana minha madíbula começou a doer.
Determinado a acabar com o sofrimento, decidi prestar mais atenção no dia-a-dia e controlar a ingestão de substâncias erradas nas horas erradas. Isso requer muita força de vontade, especialmente quando seus horários de trabalho não são usuais e nem seguem nenhuma regra aparente.
Acompanhe os acontecimentos e os resultados.

***

(neste ponto eu tinha esperanças de domar o meu problema, resolvi não tomar mais café)

Quinta
09:00 - Pãozinho com manteiga e mel, sinto o cheiro do café, decido que cheiro de café não é benéfico para mim
09:15 - Dois cigarros
09:30 - Mais um cigarro, o tempo não passa nunca
14:00 - Coxinha, cigarro
17:00 - Lanche na padoca, dois cigarros
22:00 - Diversos destilados, cerveja e cigarros em conversa mal-humorada com amigos madrugada adentro, não lembro o que comi

(estou visivelmente azedo, apesar da sensação física de bem-estar alcançada através da ausência de dor na mandíbula)

Sexta
08:30 - Pãozinho, requeijão, água (eu odeio leite)
10:00 - Dois cigarros
14:00 - Coxinha de bar, mais dois cigarros
16:00 - Mais dois cigarros
19:00 - Encontro a Bel, brigo sem ter motivo, pedimos pizza
21:00 - Três beques
23:30 - Odeio a TV e os DVD's, odeio o YouTube, vou dormir

(a vida sem café é dura, mas eu ainda resisto)

Sábado
11:30 - Misto quente de padaria, as mãos tremem, mas não tomo café
12:30 - Mais uma briga sem razão com a Bel, estou desperdiçando as fichas para a hora que tiver que falar sério
15:00 - Almoço no bar, delícia! Um cigarro
22:00 - Fico em casa, não tive saco pra falar com ninguém no telefone, dois beques

(o horizonte é cinza, a Bel é uma chata, meus amigos são uns malas, eu sempre tenho razão em tudo)

Domingo
11:15 - Pãozinho, manteiga e mel, água
12:30 - Troca de farpas infrutífera com a Bel
14:00 - Almoço com os pais, tomo um espresso
15:30 - Sobremesa, mais um espresso
16:00 - Ligo para todos os amigos e convido para virem jejuar comigo
17:45 - Começa o jejum de Yom Kippur

(começo o dia do Perdão em estado de euforia)

Segunda
18:45 - Pãozinho com requeijão
20:45 - Lauta refeição na casa dos tios
23:30 - Tapa na pantera

(termino o jejum mais fácil de todos os tempos, certo de que minha alma é pura)

Terça
08:00 - Pão com manteiga, mortadela, uma xícara de café
14:00 - Quilão, sem café nem cigarros
16:00 - Dois espressos
18:00 - Um espresso
21:00 - Pãozinho e frios, cerveja, mais um bequinho
23:00 - Faço as pazes com a Bel

(sou um novo homem, consigo conciliar relacionamentos, tenho muita energia, amo todos e todos me amam)

Quarta
11:45 - Pão com manteiga e mel, duas xícaras de café
14:30 - Um beirute, um café
21:00 - Pizza, cerveja, café
23:00 - Só uns peguinhas, um iogurte, trabalho até a madrugada

(de volta ao normal)

***

Conclusão:

Cafeína não é de deixar tirar conclusão.
Cafeína é ação. E reação também.
Cafeína sempre tem razão em tudo.