Fui jantar no meu bar favorito. Com minha ex-mulher.
Esse tipo de encontro sempre guarda a possibilidade de uma conversa potencialmente tensa.
Eu cheguei antes. Uns tantos minutos antes. Haviam conhecidos por lá. mas eu, que não queria dividir a atenção com ninguém - habilmente evitei ser visto e me sentei de costas para o salão, voltado para o bar e suas altas paredes com prateleiras até o teto, com centenas, talvez milhares de garrafas de bebidas destiladas enfileiradas.
Isso era bom. Se a conversa ficasse muito pesada ou se eu me irritado poderia usar do infalível artifício de catalogar as marcas de cachaça mentalmente. Experimente isso você também! Dá uma sensação de conforto, segurança e tranquilidade que anestesia qualquer sensação ruim.
Enquanto esperava comandei uma porção de azeitonas pretas, um chopp claro e uma cachacinha. Claudionor. É uma aguardente deliciosa mas tem um defeito. O nome é de travesti.
Um copo de chopp, uma dose de cachaça e meia porção de azeitonas depois meu celular tocou. Era minha ex-mulher perguntando o endereço. Com o trânsito e a habitual dificuldade de encontrar vagas calculei quanto tempo ela levaria e conclui que cabia mais uma cachaça antes dela chegar.
A conversa foi boa. Calorosa até. E não era apenas a cachaça. O bom humor e o estado de espírito dela encheram minha alma de boas energias. Não me dei contas na hora, mas estava imbuído de uma nostalgia que se consumava, uma lembrança revivida dos nossos bons tempos como companheiros.
Pedimos os pratos, comemos, bebemos, pedi uam sobremesa e depois um café. Paguei a conta sem perceber. Caminhamos juntos até o carro dela e nos despedimos com promessas de repetir o programa, quem sabe até com mais amigos.
A coisa só assentou quando cheguei em casa. Só. Escovei os dentes e fui me deitar. Como sempre a janela estava aberta, e a luz da rua iluminava o teto do quarto.
Meus sonhos foram felizes, mas ao acordar - um pouco melancólico - não consegui me lembrar do enredo de nenhum deles. Nem dos personagens.
Mas podia adivinhar.
20 setembro 2007
14 setembro 2007
Férias
Um período de férias me foi forçado por superiores no trabalho.
Não que eu não as merecesse. Simplesmente não sabia o que fazer com tempo livre. Tinha medo desse tempo livre. Tinha pavor de ter que encontrar pessoas nesse tempo livre.
Tomei a decisão de me lançar numa "road trip" solitária, que subisse a costa do Brasil até Salvador e voltasse por Brasília e depois Belo Horizonte. Era evidente a falta de planejamento. Os poucos amigos que souberam da idéia estapafúrdia não entendiam a razão de uma viagem tão estranha.
Só eu sabia que era para poder ficar isolado de qualquer contato humano pelo período mais longo possível. Eu teria que dirigir muitas horas, todos os dias. E intimamente já sabia que pararia apenas em lugares desolados para pernoitar.
Mas a vida é cheia de surpresas...
Assim que o Bala-de-Prata - meu fiel Celta 1.0 - pôs as rodas na estrada o sol brilhou. A correntinha da sorte devolveu a luz numa faísca. Acendi o cigarro que pendia do canto da boca e arrumei os óculos escuros.
Alguma coisa mudou em mim nessa hora.
Estava vibrante. Meu sangue, que por meses parecia gelado, ferveu. Senti um calor nas costas e no pescoço. Uma pressa gostosa de viver aquela viagem e os milhões de surpresas que me aguardavam.
...
Já na segunda parada noturna eu me esqueci da meta de falar com o menor número de pessoas possível e resolvi tomar uma cerveja num bar. Como era uma cidadezinha fuleira, o bar não oferecia muita coisa, cerveja bem fria (o que não é exatamente gelada), uns torresmos horripilantes (pelo menos para um paulistano como eu) e uns habitantes locais de dicção prejudicada (não sei se pela bebida ou pela falta de dentes importantes).
Mas - ah, correntinha da sorte - apareceu aquela pérola. Gostosa, exótica, simples e perfumada, talvez perfumada demais. Eu ainda me perguntava se ela era desdentada como os outros freqüentadores do bar quando ela me sorriu um sorriso completo. Sim, uma baianinha, da terra, daquelas que adoram um estrangeiro - como eu.
Não preciso contar o nome dela.
Quando me dei conta já estava pagando cervejas para umas cinco pessoas entre bebuns e amigas daquela coisinha deliciosa. Era um exercício e tanto compreender o que ela falava, e mais difícil ainda era arrumar assunto, mas eu fiz meu melhor.
Você é mesmo celestial! - tentei ser poético, mas soou horrível. Isso que dá se separar da mulher e depois ficar meses isolado. Sorte que ela não entendeu o que é celestial. Parti para outra abordagem, um pouco menos sutil.
Você é muito bonita, bê-u cê-e tê-a, BO-NI-TA!
Ai, você é tão romântico... parece até coisa da novela! - ela se derreteu e me confundiu com um artista da Record. Não demorou muito eu inventei uma desculpa para sair do bar e rebocar o prêmio da noite até o carro.
Mal chegamos perto do Bala-de-Prata, estacionado no pátio escuro de uma pousada mequetrefe - a única da cidade - e eu já fui agarrando a moça com mãos por todos os lados. Trepamos em cima do capô. Meses sem dar uma me fizeram sentir como um touro, um leão. A coisa foi selvagem.
E meio barulhenta. Acabou chamando a atenção de alguém que passava por perto. Que acabou avisando um primo da moça, que chamou o irmão da moça, que chamou seus dois irmãos. E o pai também.
Eu ainda sorria sem fôlego quando percebi estar cercado por quatro caras. Nenhum deles bêbado, nenhum deles sorrindo. Tentei explicar alguma coisa, mas no meio da primeira frase já tomei uma muqueta na cara. depois outra, depois outra.
Não preciso descrever o que aconteceu.
No dai seguinte acordei ao lado do valente Celta. Eu estava todo arrebentado, mas feliz por não terem destruído meu carro; e exultante por não ter sido castrado como nas histórias que os porteiros do prédio que eu morava quando era garoto contavam.
Sentia dores por todo o corpo. Entrei no carro e me olhei no espelho. vai ser chato explicar para meus amigos e colegas de trabalho como perdi tantos dentes. Agora não chamaria mais a atenção no bar.
Pior vai ser explicar como perdi o dedo anular, arrancado com um alicate quando prometi casar com a menina.
Fui ofuscado por um raio de sol que refletiu na correntinha da sorte. Merda.
Liguei o carro e peguei a estrada, rumo à São Paulo.
Não que eu não as merecesse. Simplesmente não sabia o que fazer com tempo livre. Tinha medo desse tempo livre. Tinha pavor de ter que encontrar pessoas nesse tempo livre.
Tomei a decisão de me lançar numa "road trip" solitária, que subisse a costa do Brasil até Salvador e voltasse por Brasília e depois Belo Horizonte. Era evidente a falta de planejamento. Os poucos amigos que souberam da idéia estapafúrdia não entendiam a razão de uma viagem tão estranha.
Só eu sabia que era para poder ficar isolado de qualquer contato humano pelo período mais longo possível. Eu teria que dirigir muitas horas, todos os dias. E intimamente já sabia que pararia apenas em lugares desolados para pernoitar.
Mas a vida é cheia de surpresas...
Assim que o Bala-de-Prata - meu fiel Celta 1.0 - pôs as rodas na estrada o sol brilhou. A correntinha da sorte devolveu a luz numa faísca. Acendi o cigarro que pendia do canto da boca e arrumei os óculos escuros.
Alguma coisa mudou em mim nessa hora.
Estava vibrante. Meu sangue, que por meses parecia gelado, ferveu. Senti um calor nas costas e no pescoço. Uma pressa gostosa de viver aquela viagem e os milhões de surpresas que me aguardavam.
...
Já na segunda parada noturna eu me esqueci da meta de falar com o menor número de pessoas possível e resolvi tomar uma cerveja num bar. Como era uma cidadezinha fuleira, o bar não oferecia muita coisa, cerveja bem fria (o que não é exatamente gelada), uns torresmos horripilantes (pelo menos para um paulistano como eu) e uns habitantes locais de dicção prejudicada (não sei se pela bebida ou pela falta de dentes importantes).
Mas - ah, correntinha da sorte - apareceu aquela pérola. Gostosa, exótica, simples e perfumada, talvez perfumada demais. Eu ainda me perguntava se ela era desdentada como os outros freqüentadores do bar quando ela me sorriu um sorriso completo. Sim, uma baianinha, da terra, daquelas que adoram um estrangeiro - como eu.
Não preciso contar o nome dela.
Quando me dei conta já estava pagando cervejas para umas cinco pessoas entre bebuns e amigas daquela coisinha deliciosa. Era um exercício e tanto compreender o que ela falava, e mais difícil ainda era arrumar assunto, mas eu fiz meu melhor.
Você é mesmo celestial! - tentei ser poético, mas soou horrível. Isso que dá se separar da mulher e depois ficar meses isolado. Sorte que ela não entendeu o que é celestial. Parti para outra abordagem, um pouco menos sutil.
Você é muito bonita, bê-u cê-e tê-a, BO-NI-TA!
Ai, você é tão romântico... parece até coisa da novela! - ela se derreteu e me confundiu com um artista da Record. Não demorou muito eu inventei uma desculpa para sair do bar e rebocar o prêmio da noite até o carro.
Mal chegamos perto do Bala-de-Prata, estacionado no pátio escuro de uma pousada mequetrefe - a única da cidade - e eu já fui agarrando a moça com mãos por todos os lados. Trepamos em cima do capô. Meses sem dar uma me fizeram sentir como um touro, um leão. A coisa foi selvagem.
E meio barulhenta. Acabou chamando a atenção de alguém que passava por perto. Que acabou avisando um primo da moça, que chamou o irmão da moça, que chamou seus dois irmãos. E o pai também.
Eu ainda sorria sem fôlego quando percebi estar cercado por quatro caras. Nenhum deles bêbado, nenhum deles sorrindo. Tentei explicar alguma coisa, mas no meio da primeira frase já tomei uma muqueta na cara. depois outra, depois outra.
Não preciso descrever o que aconteceu.
No dai seguinte acordei ao lado do valente Celta. Eu estava todo arrebentado, mas feliz por não terem destruído meu carro; e exultante por não ter sido castrado como nas histórias que os porteiros do prédio que eu morava quando era garoto contavam.
Sentia dores por todo o corpo. Entrei no carro e me olhei no espelho. vai ser chato explicar para meus amigos e colegas de trabalho como perdi tantos dentes. Agora não chamaria mais a atenção no bar.
Pior vai ser explicar como perdi o dedo anular, arrancado com um alicate quando prometi casar com a menina.
Fui ofuscado por um raio de sol que refletiu na correntinha da sorte. Merda.
Liguei o carro e peguei a estrada, rumo à São Paulo.
28 agosto 2007
Trabalho
Era uma nova fase. Vida de solteiro. Os amigos comemoraram muito mais que eu. "Você vai ver, agora é liberdade, sem ninguém para dizer que isso ou aquilo não pode". Mas eu tinha vontade mesmo era de ficar em casa e ler livros, assisitr DVD`s. Ou ficar só deitado, olhando para o teto.
Foda.
Um vazio imenso, a sensação de que havia uma caverna dentro de mim me acompanhava a cada instante.
Tentei preencher esse vácuo com destilados e outras porcarias em noitadas com os velhos companheiros. Porém o resultado mais comum de tais aventuras etílicas era o vômito e uma duradoura ressaca. Mesmo que este paliativo fosse do meu agrado, meu sistema digestivo não teria me permitido continuar por muito tempo. Efeitos realmente adversos passaram a me assolar depois de poucas semanas de vida boêmia.
Apesar do sofrimento físico e sentimental eu não me dava por vencido. Evitava de todas as formas revelar meus pensamentos para amigos ou colegas.
Encontrei sossego no trabalho. Acordar cedo, tomar banho, me barbear. Tomar café, dirigir o carro até o escritório e cumprimentar o porteiro eternamente sorridente. Tomar o elevador, ligar o computador e checar emails. Após esse ritual eu sentia uma couraça psicológica formada. Me sentia seguro.
Assim pouco a pouco fui me isolando dos outros. Sempre atarefado, porém cordial com aqueles que dividiam o espaço de trabalho comigo. Até sorria quando tinha a infelicidade de encontrar outras pessoas durante o cafézinho.
Passei a freqüentar a academia. Agora uma desculpa muito boa para ver menos gente ainda. Havia me tornado um rato de laborartório. Branco, condicionado a sempre reagir diante dos mesmos estímulos, e habituado a correr numa esteira.
Acho que fazia exercícios já ha uns meses quando me dei conta que havia desenvolvido uma fobia por contatos prolongados com seres humanos fora do trabalho. Cuidava das plantas com esmero, mas desligava o celular assim que saia do escritório.
Percebi que acabei havia aceitado uma porção de trabalhos free-lance além do meu emprego fixo para justificar os fins-de-semana em reclusão
Trabalhava todos os dias até tarde. Comia rapidamente na padaria antes de ir para casa, onde trabalhava mais um par de horas nos free-lances. Acordava muito cedo, ia para a academia, tomava banho e me barbeava por lá. Completava o ritual na empresa, tomando o terrível café da máquina do meu andar.
Num desses dias a máquina estava quebrada. Não bebi café. Acho que adormeci com a cabeça apoiada nas mãos, cotovelos apiados na mesa. Minha chefa (na época era uma chefa) me acordou passando a mão delicadamente nos meus cabelos.
Acordei assustadíssimo.
Ela me olhou bem nos olhos.
- Você não acha que precisa parar? Só um pouco?
Foda.
Um vazio imenso, a sensação de que havia uma caverna dentro de mim me acompanhava a cada instante.
Tentei preencher esse vácuo com destilados e outras porcarias em noitadas com os velhos companheiros. Porém o resultado mais comum de tais aventuras etílicas era o vômito e uma duradoura ressaca. Mesmo que este paliativo fosse do meu agrado, meu sistema digestivo não teria me permitido continuar por muito tempo. Efeitos realmente adversos passaram a me assolar depois de poucas semanas de vida boêmia.
Apesar do sofrimento físico e sentimental eu não me dava por vencido. Evitava de todas as formas revelar meus pensamentos para amigos ou colegas.
Encontrei sossego no trabalho. Acordar cedo, tomar banho, me barbear. Tomar café, dirigir o carro até o escritório e cumprimentar o porteiro eternamente sorridente. Tomar o elevador, ligar o computador e checar emails. Após esse ritual eu sentia uma couraça psicológica formada. Me sentia seguro.
Assim pouco a pouco fui me isolando dos outros. Sempre atarefado, porém cordial com aqueles que dividiam o espaço de trabalho comigo. Até sorria quando tinha a infelicidade de encontrar outras pessoas durante o cafézinho.
Passei a freqüentar a academia. Agora uma desculpa muito boa para ver menos gente ainda. Havia me tornado um rato de laborartório. Branco, condicionado a sempre reagir diante dos mesmos estímulos, e habituado a correr numa esteira.
Acho que fazia exercícios já ha uns meses quando me dei conta que havia desenvolvido uma fobia por contatos prolongados com seres humanos fora do trabalho. Cuidava das plantas com esmero, mas desligava o celular assim que saia do escritório.
Percebi que acabei havia aceitado uma porção de trabalhos free-lance além do meu emprego fixo para justificar os fins-de-semana em reclusão
Trabalhava todos os dias até tarde. Comia rapidamente na padaria antes de ir para casa, onde trabalhava mais um par de horas nos free-lances. Acordava muito cedo, ia para a academia, tomava banho e me barbeava por lá. Completava o ritual na empresa, tomando o terrível café da máquina do meu andar.
Num desses dias a máquina estava quebrada. Não bebi café. Acho que adormeci com a cabeça apoiada nas mãos, cotovelos apiados na mesa. Minha chefa (na época era uma chefa) me acordou passando a mão delicadamente nos meus cabelos.
Acordei assustadíssimo.
Ela me olhou bem nos olhos.
- Você não acha que precisa parar? Só um pouco?
14 julho 2007
Bar
Saí com uma amiga. Foi dia desses, nessa nova vida de solteiro.
Combinamos de ir num bar bem bacana, ambiente aconchegante e tudo mais.
Ela era amiga de muitos anos, mas à noite todos os gatos são pardos, então me preparei com a correntinha da sorte, a camisa mais cool e mais limpa que eu tinha e tomei meu rumo.
Subi no Bala-de-Prata (meu valente Celta 1.0 prateado) e arranquei em direção à Vila Madalena. Uma sequência que havia começado tão bem com os seis primeiros sinais sempre verdes foi interrompida por alguns pedestres sem-noção que resolveram atravessar a rua fora da faixa, correndo bem na minha frente.
Filhos-da-puta!
Contive meus instintos mais sanguinários e freei com antecedência, no tempo certinho para assustar o último da turma. Parado antes da faixa de pedestres me senti um cidadão exemplar e cumpridor do dever cívico.
Merecia uma recompensa - resolvi que naquele momento era socialmente aceitável futucar o nariz. Pois dito e feito, bem no instante em que eu desencavei aquele melecão grotesco, ouço uma buzinadinha leve e percebo alguém acenando para mim no carro ao lado.
Olhei tentando disfarçar e percebi que se tratava de uma gatinha. Baixei a janela enquanto ela perguntava onde ficava tal bar. Ela tinha um olhar engraçado. - Que bar é esse? - perguntei. O olhar engraçado era na verdade um riso mal reprimido, que terminou por explodir numa gargalhada estrondosa entrecortada por um "esquece", prenuncio da fuga precipitada da moça.
A correntinha da sorte já foi melhor - eu pensei.
Consegui estacionar bem perto, menos de uma quadra de distância. Melhor que isso, como era cedo não havia nenhum guardador de carro.
Cheguei no bar e chaga um torpedo - vou atrasar mas chego logo. Cara de pau! essa menina me deixou esprando mais de meia hora. Pedi a cachacinha de lei e um torresmo pra arrematar - saúde!
Estrategicamente depois do final da porção de torresmo minha amiga chegou, toda esbaforida, meio estressada e reclamando de um carinha mala-sem-alça que ela havia beijado - esses caras saem com a gente duas vezes e já acham que têm um relacionamento, credo!
Depois a moça discorreu sobre uns casos anteriores que haviam acabado meio mal. incluindo nesse rol a história de um sujeito por quem ela não tinha muito tesão mas topou sair assim mesmo depois de receber um indecentíssimo convite para um menage com mais um amigo - me deu uma curiosidade louca, ela explicou - e chegou na hora H os dois caras tiveram ejaculação precoce. Traumático, anos de análise para ela se libertar de todos os preconceitos e medos e agora isso...
Contive o choque e disfarcei o espanto. Pedi mais uma cachaça.
Lá para o final da conversa ela faz um revelação - Eu acabo tendo que aturar cada coisa, mas tudo o que eu preciso é tapar esse buraco... Toquei a correntinha da sorte com os dedos e pensei - É hoje, a correntinha não falha!
Pedi mais dois drinques - a mocinha não era fraca. Depois de uns goles, senti o calor no ar e parti para o beijo num momento que ela me olhou fixamente.
Ei! Que é isso! - ela falou numa voz bem fina e meio alta demais. Um monte de gente virou para olhar.
Engasguei. Gaguejei. Suei e avermelhei. Tentei justificar citando o bombástico "o que eu preciso é tapar esse buraco...". Ela riu gostoso, passou a mão no meu cabelo e explicou - O buraco é no meu coração, lindo! Acho que você se confundiu, nós somos muito amigos...
Uma meia hora super constrangedora passou até que eu conseguisse pagar a conta. Caminhei até meu carro ruminando a cena patética.
O flanelinha se aproximou - cinco conto e tá tudo em casa, chefão. Respondi que havia dado a grana para outro cara na ida. Porra, alemão, os caras te enganaram, só eu fico aqui nesse lugar - o figura retrucou, meio irritado - Aí, alemão, te fizeram de otário!
A agressividade do sujeito não me intimidou. Dei partida e guieilentamente até em casa. Os fatos recentes não saiam da minha cabeça, que parecia estramente pesada e oca. Só o eco das palacras a preenchia "aí, alemão, te fizeram de otário!"
Combinamos de ir num bar bem bacana, ambiente aconchegante e tudo mais.
Ela era amiga de muitos anos, mas à noite todos os gatos são pardos, então me preparei com a correntinha da sorte, a camisa mais cool e mais limpa que eu tinha e tomei meu rumo.
Subi no Bala-de-Prata (meu valente Celta 1.0 prateado) e arranquei em direção à Vila Madalena. Uma sequência que havia começado tão bem com os seis primeiros sinais sempre verdes foi interrompida por alguns pedestres sem-noção que resolveram atravessar a rua fora da faixa, correndo bem na minha frente.
Filhos-da-puta!
Contive meus instintos mais sanguinários e freei com antecedência, no tempo certinho para assustar o último da turma. Parado antes da faixa de pedestres me senti um cidadão exemplar e cumpridor do dever cívico.
Merecia uma recompensa - resolvi que naquele momento era socialmente aceitável futucar o nariz. Pois dito e feito, bem no instante em que eu desencavei aquele melecão grotesco, ouço uma buzinadinha leve e percebo alguém acenando para mim no carro ao lado.
Olhei tentando disfarçar e percebi que se tratava de uma gatinha. Baixei a janela enquanto ela perguntava onde ficava tal bar. Ela tinha um olhar engraçado. - Que bar é esse? - perguntei. O olhar engraçado era na verdade um riso mal reprimido, que terminou por explodir numa gargalhada estrondosa entrecortada por um "esquece", prenuncio da fuga precipitada da moça.
A correntinha da sorte já foi melhor - eu pensei.
Consegui estacionar bem perto, menos de uma quadra de distância. Melhor que isso, como era cedo não havia nenhum guardador de carro.
Cheguei no bar e chaga um torpedo - vou atrasar mas chego logo. Cara de pau! essa menina me deixou esprando mais de meia hora. Pedi a cachacinha de lei e um torresmo pra arrematar - saúde!
Estrategicamente depois do final da porção de torresmo minha amiga chegou, toda esbaforida, meio estressada e reclamando de um carinha mala-sem-alça que ela havia beijado - esses caras saem com a gente duas vezes e já acham que têm um relacionamento, credo!
Depois a moça discorreu sobre uns casos anteriores que haviam acabado meio mal. incluindo nesse rol a história de um sujeito por quem ela não tinha muito tesão mas topou sair assim mesmo depois de receber um indecentíssimo convite para um menage com mais um amigo - me deu uma curiosidade louca, ela explicou - e chegou na hora H os dois caras tiveram ejaculação precoce. Traumático, anos de análise para ela se libertar de todos os preconceitos e medos e agora isso...
Contive o choque e disfarcei o espanto. Pedi mais uma cachaça.
Lá para o final da conversa ela faz um revelação - Eu acabo tendo que aturar cada coisa, mas tudo o que eu preciso é tapar esse buraco... Toquei a correntinha da sorte com os dedos e pensei - É hoje, a correntinha não falha!
Pedi mais dois drinques - a mocinha não era fraca. Depois de uns goles, senti o calor no ar e parti para o beijo num momento que ela me olhou fixamente.
Ei! Que é isso! - ela falou numa voz bem fina e meio alta demais. Um monte de gente virou para olhar.
Engasguei. Gaguejei. Suei e avermelhei. Tentei justificar citando o bombástico "o que eu preciso é tapar esse buraco...". Ela riu gostoso, passou a mão no meu cabelo e explicou - O buraco é no meu coração, lindo! Acho que você se confundiu, nós somos muito amigos...
Uma meia hora super constrangedora passou até que eu conseguisse pagar a conta. Caminhei até meu carro ruminando a cena patética.
O flanelinha se aproximou - cinco conto e tá tudo em casa, chefão. Respondi que havia dado a grana para outro cara na ida. Porra, alemão, os caras te enganaram, só eu fico aqui nesse lugar - o figura retrucou, meio irritado - Aí, alemão, te fizeram de otário!
A agressividade do sujeito não me intimidou. Dei partida e guieilentamente até em casa. Os fatos recentes não saiam da minha cabeça, que parecia estramente pesada e oca. Só o eco das palacras a preenchia "aí, alemão, te fizeram de otário!"
07 maio 2007
Sem título
Separei todos os seus CD's de música e de computador, backups, essas coisas. Coloquei na caixa grande.
Que bom, valeu.
Seus lápis e seus pincéis estão na caixinha de madeira.
Não, nessa eu guardei o incenso, estão naquela maior.
Ah...
...Cadê minhas florzinhas de papel?
Essas coisinhas mais frufrus eu cocloquei na lata de biscoito que você trouxe da viagem de Portugal.
Brigado... ela disse numa voz que saiu meio apertada.
Mas eu roubei esses dois CD's, e essa peninha preta que você prendia no chapéu, tudo bem?
Tá, mas por quê a peninha preta?
Não respondi. Não lembro como me despedi. Não lembro quando dormi.
Mas quando acordei no meio da noite e me peguei ruminando a cena da devolução das últimas coisas que a mulher que viveu comigo nos últimos quatro anos fiquei com vontade de voltar lá e dizer que nunca vou esquecer de quem me ensinou tanto do lado mais delicado da vida.
Que bom, valeu.
Seus lápis e seus pincéis estão na caixinha de madeira.
Não, nessa eu guardei o incenso, estão naquela maior.
Ah...
...Cadê minhas florzinhas de papel?
Essas coisinhas mais frufrus eu cocloquei na lata de biscoito que você trouxe da viagem de Portugal.
Brigado... ela disse numa voz que saiu meio apertada.
Mas eu roubei esses dois CD's, e essa peninha preta que você prendia no chapéu, tudo bem?
Tá, mas por quê a peninha preta?
Não respondi. Não lembro como me despedi. Não lembro quando dormi.
Mas quando acordei no meio da noite e me peguei ruminando a cena da devolução das últimas coisas que a mulher que viveu comigo nos últimos quatro anos fiquei com vontade de voltar lá e dizer que nunca vou esquecer de quem me ensinou tanto do lado mais delicado da vida.
10 fevereiro 2007
09 fevereiro 2007
Tragédia em três tempos
O último freela.
No meu último freela eu penei. Não havia onde estacionar o carro. Na hora do almoço eu tinha que caminhar quatro quadras antes de chegar em um restaurante que não cobrasse mais de 20 reais por prato. Fora o horário; fixo pra entrar e muito flexível pra sair. Isso mesmo. Entrava cedo e nunca sabia a hora de ir embora.
Para fechar com chave de merda. fui demitido por telefone. Eu tinha que esperar um diretor de arte aprovar o meu trabalho. O cara deu uma "saidinha" as cinco da tarde. As sete eu tinha tudo pronto. As dez o cara não atendia o celular. Fui embora e deixei um bilhete na mesa dele que dizia "se precisar refazer alguma parte me ligue no celular xxxx-xxxx que eu volto pra agência". As onze o telefone tocou e eu fui demitido por não estar esperando a figura...
O primeiro emprego (fixo em muitos anos)
Me chamaram para uma entrevista. Me ofereceram um salário decente, vaga coberta no estacionamento, férias, horários fixos e humanos. A equipe era composta por gente bacana. A chefe era gentil. O trabalho tinha muita visibilidade.
Teria eu coragem de abandonar minha vida masoquista no submundo do trabalho informal? Trocar minha total liberdade de dias e horários (em termos) por conforto material?
O primeiro remorso
Aceitei. E tive que abandonar alguém muito importante. Sim, minha máquina de café, que agora só me vê pela manhã, bem cedinho. Eu demonstro meu carinho quando a limpo todos os dias com uma flanela úmida. Mas ela está magoada, eu sinto isso no café, cada dia mais amargo.
No meu último freela eu penei. Não havia onde estacionar o carro. Na hora do almoço eu tinha que caminhar quatro quadras antes de chegar em um restaurante que não cobrasse mais de 20 reais por prato. Fora o horário; fixo pra entrar e muito flexível pra sair. Isso mesmo. Entrava cedo e nunca sabia a hora de ir embora.
Para fechar com chave de merda. fui demitido por telefone. Eu tinha que esperar um diretor de arte aprovar o meu trabalho. O cara deu uma "saidinha" as cinco da tarde. As sete eu tinha tudo pronto. As dez o cara não atendia o celular. Fui embora e deixei um bilhete na mesa dele que dizia "se precisar refazer alguma parte me ligue no celular xxxx-xxxx que eu volto pra agência". As onze o telefone tocou e eu fui demitido por não estar esperando a figura...
O primeiro emprego (fixo em muitos anos)
Me chamaram para uma entrevista. Me ofereceram um salário decente, vaga coberta no estacionamento, férias, horários fixos e humanos. A equipe era composta por gente bacana. A chefe era gentil. O trabalho tinha muita visibilidade.
Teria eu coragem de abandonar minha vida masoquista no submundo do trabalho informal? Trocar minha total liberdade de dias e horários (em termos) por conforto material?
O primeiro remorso
Aceitei. E tive que abandonar alguém muito importante. Sim, minha máquina de café, que agora só me vê pela manhã, bem cedinho. Eu demonstro meu carinho quando a limpo todos os dias com uma flanela úmida. Mas ela está magoada, eu sinto isso no café, cada dia mais amargo.
13 janeiro 2007
Primeira Semana
Todo mundo sabe. Eu tenho uma máquina de café espresso. À seguir acompanhe o que aconteceu na primeira semana de adaptação à esta nova tecnologia.
Quarta-feira
21hs – Cheguei em casa com a Máquina. Desembalo cuidadosamente e leio o manual de instruções com atenção.
21:30 – Tiro o primeiro espresso. Preto, amargo, queimado. Duplo, porque ainda não havia comprado as xicrinhas apropriadas e uso uma xícara de chá.
22:45 – Finalmente domino a técnica. Depois de haver tomado 5 espressos duplos.
23hs – Escovo os dentes, que estão rangendo, e vou para a cama.
23:05 – Desisto de dormir e vou para o estúdio desenhar, ouvir música, escrever, ler um livro. Tudo ao mesmo tempo.
5:15 – Consigo ir dormir.
Quinta-feira
9hs – Pulo da cama sentindo as pálpebras quentes.
9:05 – Ligo a Máquina e tiro um espresso (na xícara de chá). Leio notícias e emails. Entrou um daqueles frilas suicidas.
9:15 – Tomo outro espresso e começo o frila.
16hs – Pausa pro almoço, um espressinho duplo prá arrematar.
18:30 – Pausa pro café.
21:30 – Pausa pro lanche. Pão com figo e mortadela. Café espresso.
2:15 – Pausa pro café. Estou me sentindo animado para terminar o frila.
5:45 – Pausa pro café.
Sexta-feira
7:30 – Ligo a Máquina. Os termos dia, noite, hoje e ontem parecem mais difíceis de abstrair na conversa de café da manhã com minha mulher. O açucar acabou. Dois cafés.
10:45 – Comemoro o tempo recorde para completar o trabalho com um café baiano (um espresso batizado com uma dose de cachaça). Chamo um portador para levar o CD embora.
14:15 – Como meu almoço meio a contragosto. Mais um espresso na xícara de chá.
22:45 – Na happy hour encontro amigos de profissão e entre eles um mineiro que se auto-proclama um viciado em café. Comemoramos a nova amizade tomando um par de espressos cada um.
1:50 – O cara também conhece o café baiano, mas chama de outro nome, que eu não lembro.
3:25 – Nosso pedido de mais dois café baianos e negado pelo garçom. Vamos embora. Ao chegar em casa fica mais fácil dormir
Sábado
8:15 – Um fiozinho de luz entra pela fresta da janela. Pulo da cama.
8:18 – Ligo a Máquina e tiro um espresso. Estou aperfeiçoando minha técnica, estou super rápido para fazer espressos agora.
8:25 – Acendo um baseado, parei de fumar cigarros.
9:35 – Já deixei recados e mandei emails para quase todos os meus amigos.
13:25 – Tomo um café e saio de casa.
Passo a tarde num périplo entre bares e cafés baianos. Sou xingado diversas vezes por ter acordado um monte de gente e ter interrompido umas tantas trepadas matinais.
20:45 – Tiro um cochilo no sofá da casa de um amigo. Sinto a pressão baixa.
23:30 – Desperto. Tomo um café de coador. Sinto fome.
23:50 – Pego os últimos pedaços de pizza da Real, perto da MTV. Mais dois cafés.
12:30 – Em casa, sem vontade de ver ninguém, num arroubo de mau humor, preparo e tomo em seguida três espressos. Meu estômago reclama.
Domingo
8:30 – Termino de escrever uma obra prima! Comemoro com um café. A Máquina já (ainda?) estava ligada.
8:45 – Tendo aprendido a lição do dia anterior penso bem antes de usar o telefone.
9:15 – Me encontro com as únicas pessoas que conheço que estão de pé essa hora para tomar café comigo; meus pais.
10:35 – Me despeço. Meus pais têm um olhar de preocupação.
15:45 – Termino o almoço no Genésio. Sinto muito sono apesar dos cafés.
17:30 – Levanto do sofá. Estou na minha sala, mas não me lembro muito bem de ter feito o caminho do bar até a casa.
19hs – Aparecem alguns amigos, que eu havia convidado nem me lembro quando para conhecer a Máquina de espressos. Demosntro todas as técnicas dominadas no curto porém intenso tempo de uso.
12:45 – Vou dormir, estou exausto.
Segunda-feira
7:30 – Acordo, me sinto um bagaço.
7:45 – Ligo a Máquina e tomo um café espresso. Meu estômago dói.
8:45 – Chega o email do meu cliente com correções e emendas para o frila.
14hs – Almoço e tomo um café. Agora, além da dor de estômago, sinto um mal estar estranho, um pouco de enjôo e dor de cabeça.
16hs – Estou suando frio, mas um telefonema do cliente aprovando o trabalho me anima. Penso em um espresso.
18:30 – Fumo um baseado e vou dormir.
Terça-feira
6:15 – Acordo e faço um chá.
Passo o dia todo trabalhando e evito olhar para a Máquina, que passa o dia descansando.
19:50 – Compro numa loja de presentes um jogo de xicrinhas de espresso.
21:40 – Termino o jantar e não tomo café.
Quarta-feira
8:00 – Meu estômago parou de doer. Faço uma promessa de não tomar mais de três espressos por dia.
14:45 – Quebro minha promessa depois do almoço, mas desligo a Máquina.
18:45 – Toca o telefone. Um frila, daqueles bem vampíricos, de virar noite e sugar o sangue. Ligo a Máquina.
Quarta-feira
21hs – Cheguei em casa com a Máquina. Desembalo cuidadosamente e leio o manual de instruções com atenção.
21:30 – Tiro o primeiro espresso. Preto, amargo, queimado. Duplo, porque ainda não havia comprado as xicrinhas apropriadas e uso uma xícara de chá.
22:45 – Finalmente domino a técnica. Depois de haver tomado 5 espressos duplos.
23hs – Escovo os dentes, que estão rangendo, e vou para a cama.
23:05 – Desisto de dormir e vou para o estúdio desenhar, ouvir música, escrever, ler um livro. Tudo ao mesmo tempo.
5:15 – Consigo ir dormir.
Quinta-feira
9hs – Pulo da cama sentindo as pálpebras quentes.
9:05 – Ligo a Máquina e tiro um espresso (na xícara de chá). Leio notícias e emails. Entrou um daqueles frilas suicidas.
9:15 – Tomo outro espresso e começo o frila.
16hs – Pausa pro almoço, um espressinho duplo prá arrematar.
18:30 – Pausa pro café.
21:30 – Pausa pro lanche. Pão com figo e mortadela. Café espresso.
2:15 – Pausa pro café. Estou me sentindo animado para terminar o frila.
5:45 – Pausa pro café.
Sexta-feira
7:30 – Ligo a Máquina. Os termos dia, noite, hoje e ontem parecem mais difíceis de abstrair na conversa de café da manhã com minha mulher. O açucar acabou. Dois cafés.
10:45 – Comemoro o tempo recorde para completar o trabalho com um café baiano (um espresso batizado com uma dose de cachaça). Chamo um portador para levar o CD embora.
14:15 – Como meu almoço meio a contragosto. Mais um espresso na xícara de chá.
22:45 – Na happy hour encontro amigos de profissão e entre eles um mineiro que se auto-proclama um viciado em café. Comemoramos a nova amizade tomando um par de espressos cada um.
1:50 – O cara também conhece o café baiano, mas chama de outro nome, que eu não lembro.
3:25 – Nosso pedido de mais dois café baianos e negado pelo garçom. Vamos embora. Ao chegar em casa fica mais fácil dormir
Sábado
8:15 – Um fiozinho de luz entra pela fresta da janela. Pulo da cama.
8:18 – Ligo a Máquina e tiro um espresso. Estou aperfeiçoando minha técnica, estou super rápido para fazer espressos agora.
8:25 – Acendo um baseado, parei de fumar cigarros.
9:35 – Já deixei recados e mandei emails para quase todos os meus amigos.
13:25 – Tomo um café e saio de casa.
Passo a tarde num périplo entre bares e cafés baianos. Sou xingado diversas vezes por ter acordado um monte de gente e ter interrompido umas tantas trepadas matinais.
20:45 – Tiro um cochilo no sofá da casa de um amigo. Sinto a pressão baixa.
23:30 – Desperto. Tomo um café de coador. Sinto fome.
23:50 – Pego os últimos pedaços de pizza da Real, perto da MTV. Mais dois cafés.
12:30 – Em casa, sem vontade de ver ninguém, num arroubo de mau humor, preparo e tomo em seguida três espressos. Meu estômago reclama.
Domingo
8:30 – Termino de escrever uma obra prima! Comemoro com um café. A Máquina já (ainda?) estava ligada.
8:45 – Tendo aprendido a lição do dia anterior penso bem antes de usar o telefone.
9:15 – Me encontro com as únicas pessoas que conheço que estão de pé essa hora para tomar café comigo; meus pais.
10:35 – Me despeço. Meus pais têm um olhar de preocupação.
15:45 – Termino o almoço no Genésio. Sinto muito sono apesar dos cafés.
17:30 – Levanto do sofá. Estou na minha sala, mas não me lembro muito bem de ter feito o caminho do bar até a casa.
19hs – Aparecem alguns amigos, que eu havia convidado nem me lembro quando para conhecer a Máquina de espressos. Demosntro todas as técnicas dominadas no curto porém intenso tempo de uso.
12:45 – Vou dormir, estou exausto.
Segunda-feira
7:30 – Acordo, me sinto um bagaço.
7:45 – Ligo a Máquina e tomo um café espresso. Meu estômago dói.
8:45 – Chega o email do meu cliente com correções e emendas para o frila.
14hs – Almoço e tomo um café. Agora, além da dor de estômago, sinto um mal estar estranho, um pouco de enjôo e dor de cabeça.
16hs – Estou suando frio, mas um telefonema do cliente aprovando o trabalho me anima. Penso em um espresso.
18:30 – Fumo um baseado e vou dormir.
Terça-feira
6:15 – Acordo e faço um chá.
Passo o dia todo trabalhando e evito olhar para a Máquina, que passa o dia descansando.
19:50 – Compro numa loja de presentes um jogo de xicrinhas de espresso.
21:40 – Termino o jantar e não tomo café.
Quarta-feira
8:00 – Meu estômago parou de doer. Faço uma promessa de não tomar mais de três espressos por dia.
14:45 – Quebro minha promessa depois do almoço, mas desligo a Máquina.
18:45 – Toca o telefone. Um frila, daqueles bem vampíricos, de virar noite e sugar o sangue. Ligo a Máquina.
É uma idéia para uma cena.
Foi uma noite dessas por volta das oito. Cheguei em casa e beijei minha mulher. Enquanto preparávamos o jantar conversamos sobre o dia que havia passado. Eu era responsável pela salada, e ela pela sopa (sim, sopa, no verão!).
- Hoje eu tive uma idéia!
- Mesmo? Que idéia?
- É uma idéia para uma cena.
- Ai, Ai. Você e suas idéias...
- É assim; nós dois estamos no sofá, vendo T.V., e eu digo pra você que tenho uma idéia para uma cena.
- Hum, e aí?
- Daí eu falo que você está na cena.
- Por quê você sempre põe meu nome na história? Porque você não usa um amigo?!
- Eu escrevi que você disse exatamente essa frase! “Porque você não conversa com um amigo?!“ E dai eu respondo “E por quê não conversar com meu cachorrinho?”. E daí você fica furiosa e diz “Quê?! Você me chamou de cadela?“.
- Quê?!!! – ela exclama - Você me chamou de cadela?!!!
- É! Olha só que perfeito! Aconteceu igualzinho agora!
- Você me expõe demais assim!
- Mas é tudo ficção, e eu nunca escrevi o seu nome.
- E por quê não conversa com um amigo sobre uma cena na qual eu apareço?
- E porquê não conversar com meu amigo sobre meu cachorro?
- Conversar com seu cachorro sobre mim pode! Ia ser super fofo!
E ante esse argumento, eu não tive resposta. Com um beijo encerramos a discussão e passamos a outro assunto.
- Hoje eu tive uma idéia!
- Mesmo? Que idéia?
- É uma idéia para uma cena.
- Ai, Ai. Você e suas idéias...
- É assim; nós dois estamos no sofá, vendo T.V., e eu digo pra você que tenho uma idéia para uma cena.
- Hum, e aí?
- Daí eu falo que você está na cena.
- Por quê você sempre põe meu nome na história? Porque você não usa um amigo?!
- Eu escrevi que você disse exatamente essa frase! “Porque você não conversa com um amigo?!“ E dai eu respondo “E por quê não conversar com meu cachorrinho?”. E daí você fica furiosa e diz “Quê?! Você me chamou de cadela?“.
- Quê?!!! – ela exclama - Você me chamou de cadela?!!!
- É! Olha só que perfeito! Aconteceu igualzinho agora!
- Você me expõe demais assim!
- Mas é tudo ficção, e eu nunca escrevi o seu nome.
- E por quê não conversa com um amigo sobre uma cena na qual eu apareço?
- E porquê não conversar com meu amigo sobre meu cachorro?
- Conversar com seu cachorro sobre mim pode! Ia ser super fofo!
E ante esse argumento, eu não tive resposta. Com um beijo encerramos a discussão e passamos a outro assunto.
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