24 novembro 2006

Olhos ardentes

Hoje bebi três xícaras de café.

Bebi até minha gengiva ficar sensível e meus dentes começarem a bater.
Foram três xícaras, acompanhadas por três cigarros num rital meticuloso. Com o primeiro gole, o primeiro trago. A última baforada quando a xícara está vazia.

Levantei da mesa com taquicardia. A ansiedade me levava pelas mãos numa mania auto-induzida, assim como provavelmente será a minha gastrite e posterior úlcera estomacal.

***

Minhas pálpebras começaram a arder hoje, lá pela hora do almoço. A sensação é a mesma que se tem quando toma-se sol por muito tempo. E o ardor piorava muito quando eu fechava os olhos. Fiquei sem piscar o dia todo.

***

Agora já se foi uma semana sem dormir. É mais de meia noite. Nos últimos dias tenho vivido numa zona nebulosa. Entre a vigília e o sonho. Parei de ir ao escritório pois não posso trabalhar assim. O que eu falo não faz mais sentido. Meus pensamentos não se concluem.

Quando me deito não posso relaxar. Sinto como se flutuasse a poucos milímetros da cama. É tanta tensão que parece eletricidade estática. Mas está dentro da minha pele. Solta faíscas no lençol.

O sol já desponta lá no fundo. Nos dias passados essa visão me causou desconforto. Mas agora estou acostumado. Posso dizer com toda a certeza que prefiro a luz da lua. Minhas pálpebras ardem menos.

***

Caí no sono. Acordei após um dia inteiro fora do ar. Mas não sonhei. Vi o futuro. Vi a sociedade em convulsão. Vi os povos em guerra. Senti o calor infernal. Mas, acima de tudo, o que mais me deixou inquieto foi entender o meu futuro miserável.

Ao acordar vi minha mulher. Tinha dentro de mim uma tristeza enorme. Tão grande que tirava de mim todas as forças e vontades. Até mesmo a vontade de chorar.

"Você está bem?" - ela perguntou. "Puxa... eu acho que não vai dar" - respondi. "O que não vai dar?" - ela disse com a voz mais doce do mundo, enquanto alisava meus cabelos. Respondi com uma certeza seca, embrulhada numa dúvida, cuja função exclusiva era proteger a única pessoa que eu reconheci em minhas visões.

"Eu vi tudo, e acho que não vai dar".

22 novembro 2006

Almoço

Hoje eu comecei um freela num estúdio novo. Não conhecia ninguém por lá.

Durante toda a manhã trabalhei numa embalagem de nuggets de frango enquanto escutava música no meu iPod. Não conversei com ninguém.

Na hora do almoço me convidaram para ir num restaurante por kilo. Na intenção de me enturmar, aceitei o convite. Me surpreendi quando me sentei e olhei para o meu prato. Nuggets! A conversa não engatou de imadiato. Alguns silêncios pontuavam a refeição. Como as primeiros assuntos não me interessavam muito, comecei a divagar.

Que assuntos seriam interessantes nessa hora? Eu gosto de falar sobre café e ansiedade. Também gosto de pensar sobre ética comparada. Existem vários assuntos que são melhores pensados do que falados. Entrei em longos debates comigo mesmo, mas tomei o cuidado de não mexer a boca. Queria terminar a primeira refeição sem passar pelo constrangimento de ser tachado de maluco.

Voltei ao planeta terra quando capturei uma frase sobre um vídeo no Youtube. Eu já havia terminado meu prato, e todos ainda comiam. Provavelmente me consideravam afobado e estranho, mas acho que escapei da pecha de louco.

Na volta ao estúdio, paramos um minuto para um café. Sem hesitar saquei meu maço de cigarros. Estava sem isqueiro. No curtíssimo tempo que eu levei para encontrar algum fumante que pudesse acender meu cigarro, meus colegas já se haviam ido. Terminei de fumar sozinho.

Ao entrar no edifício notei que havia esquecido o crachá na sala. Fui barrado na portaria.

Sem saber o que fazer, calculei o valor de todos os objetos que havia deixado sobre a mesa. Um crachá do prédio, um isqueiro e uma revista semanal. Pus de um lado da balança o isqueiro e a revista, e do outro o crachá, simbolizando a embalagem de nuggets e o magro ordenado que viria dela.

Fui embora, para nunca mais voltar. Agora sim, todos devem me considerar louco.

19 novembro 2006

Esclarecendo...

Depois de algumas me perguntarem se eu fiquei louco ao re-publicar (expressão destituída de sentido político) Cachorro Morto, esclareço: reescrevi o final.
Vocês podem notar que se trata da parte 3b. O fim original ainda está disponível.

18 novembro 2006

Cachorro Morto - Parte 1

Acordei no meio de um pesadelo. Me atracava com um inimigo mortal. Eu pulava no pescoço dele. Minhas unhas como cacos de vidro na garganta. Dei um pulo na cama, em direção à jugular da minha mulher, que despertou assustada com meu sonambulismo assassino. Tomamos café da manhã.

Fui com ela até uma emissora de TV, num distrito industrial, muito distante. Nos perdemos. Conheci o Rodoanel. Peguei trânsito no final da Anhangüera.

Resolvi emendar os compromissos e tive de emendar viagens. Grandes distâncias. Extremos da cidade.

Percorri toda a Marginal Pinheiros sem pôr o pé no freio. Sol e asfalto, calor e cimento. Driblando caminhões tomei o caminho da esquerda, Guido Caloi. Direita na M'boi Mirim, em direção ao Jardim Ângela. Apesar de ser sexta-feira, quase duas da tarde, poucos carros apareceram para dificultar o meu caminho.

Mesmo assim, já eram quase três horas guiando.

No corredor de ônibus um biarticulado parou no ponto. Um cachorrinho saiu correndo logo à frente, numa tentativa fatal de atravassar a rua. Meti o pé no freio e joguei o carro para a direita. O pequeno animal fez suas últimas - e infelizes - escolhas. Correu de um lado para o outro. O barulho dos pneus gastando na rua. Brevemente interrompido duas vezes por um som surdo. Scriiiiii toc toc scriiiiii.

Uma sensação péssima. Pressão no estômago. Olhei pelo retrovisor, e reconheci o vulto escuro de um cachorro dançando mais de um palmo acima do chão em violentas convulsões.

Parei o carro em algum lugar - uns 20 metros depois - já tentando mentalizar que era apenas um cachorro, num acidente, não era culpa minha, e se fosse, não seria muita coisa, afinal. era só um cachorrinho.

Desci do carro acendendo um cigarro. Calafrios faziam minhas mãos tremer. Ânsia de vômito.

Olhei e vi duas crianças - um menino e uma menina - e uma moça de uns vinte anos em volta do animalzinho agonizante. O menino, que provavelmente havia arrastado o bicho do meio da avenida até a calçada, pôs a mão no peito do coitado.

O corpinho aparentemente intacto, os pêlos ainda tentando me convencer que eram bonitos e saudáveis. Percebi as tetinhas - era uma cadelinha. Também notei os sangue escorrendo do ouvido. E os olhinhos para fora das órbitas. Entendi que havia acertado a cabeça.

"O coração parou de bater" - disse o menino. Fiquei em silêncio. Muito silêncio. Não ouvi ninguém chorar. Não ouvi o barulhos dos carros, ônibus e caminhões na avenida. Não ouvi nem meus pensamentos.

Cachorro Morto - Parte 2

Hoje meu coração é de pedra, atropelei um cachorro na avenida.
Mas isso não me faz sentir menos vulnerável.

Agora já é noite. Estou no trânsito, acelerando, freando, acelerando, freando, faz quase duas horas. Na Marginal Pinheiros, mais uma vez. É tão devagar que já é hora de atender aos compromissos sociais. Festa de aniversário, happy hour, lançamento de livro, vernissage em galeria - faz diferença?

Fiquei preso numa conversa desinteressante, que uma mulher me contou sobre uma viagem que eu não queria saber. Ela contava os detalhes e me cutucava no braço ou no ombro.

Eu odeio que me toquem. Afora os cumprimentos habituais nas horas habituais - apertos de mão, abraços e beijos no rosto - não sou muito chegado à proximidadde física. A não ser, é claro, de pessoas muito especiais, em momentos muito especiais.

Mas não era esse o caso.

Eu tentei me defender. Escondi o braço atrás do corpo. Foi muito pior, os toques - quase golpes àquela altura - passaram a me atingir no peito e na barriga. O desconforto da situação me subiu ao rosto. Ficou evidente que algo não me agradava. Com as costas voltadas para a parede num bar barulhento percebi que não havia saída fácil. Estava encurralado.

Sufocado.

Sob o pretexto de comprar cigarros pedi licença e saí do bar. Caminhei lentamente até uma padaria próxima. Um mendigo falou comigo. Era um mendigo jovem, negro, de rosto bonito e voz clara. "Me dá uma esmola?" Eu estranhei muito o uso do termo esmola. geralmente se escuta "me dá uma moeda" ou "me dá uma forcinha?" Neguei o dinheiro.

Entrei na padaria e comprei meu Marlboro vermelho. Na saída um pequeno tumulto havia tomado a rua, muitas vozes no meio do barulho do trânsito. Alguém havia sido atropelado. Lembrei do cachorrinho. Escutei alguém dizer que o mendigo tinha se jogado embaixo de um ônibus. Não fui olhar.

Voltei ao bar. Me sentei numa mesa vazia qualquer. Em silêncio de novo. Com muito esforço consegui fazer minha mente ficar em branco.

A mulher dos cutucões voltou. Protegido pela distância que a mesa nos obrigava a manter me senti melhor. Mas não o suficiente para falar. Acho que ela deve ter tentado conversar comigo por quase dez minutos antes de me perguntar se eu me sentia bem.

Abri a boca. Não sei o que disse. Levantei e fui embora.

Pela terceira vez no dia guiava em alta velocidade na Marginal Pinheiros. Folhas secas, pedaços de papel e outras coisas se misturavam em torvelinhos no vento. Os pequenos rodamoinhos de sujeira corriam mais que meu carro. Aquele cheiro que antecede a chuva era mais forte que o fedor do rio.

Mas chuva não veio. A verdadeira tempestade que me aguardava não estava no céu. Me esperava para o jantar.

Cachorro Morto - Parte 3b

Havia combinado de encontrar minha esposa num restaurante japonês. Escolhemos um daqueles com balcões onde você pode observar o trabalho do sushiman. Não era exatamente um restaurante tradicional, mas já existia há muito tempo e eu chamava o rapaz do outro lado do balcão pelo nome.

A conversa demorava a engrenar. Trabalhos, shows de música, livros e histórias estranhas de festas de pessoas que eu lembrava do nome mas não conhecia. Nada disso era páreo para o brilho da lâmina da faca que cortava o peixe.

O reflexo da luz no metal me hipnotizava, indo e vindo, como se a carne do atum não oferecesse resistência.

Esperei pelo momento certo. O sushiman se distraiu com algum comentário do outro lado do balcão, eu agarrei a faca e dei no pé.

Depois dessa atitude impulsiva seria difícil voltar a ser bem atendido naquele restaurante. Muito mais difícil seria minha mulher me achar normal novamente.

Corri alguns quarteirões com a arma branca nas mãos. Parei numa praça escura para descansar. Me sentei num banco. A única luz ali era o reflexo da lua na lâmina afiada.

Desde então entendi tudo.

Vivo nas avenidas. Amo as marginais. Durmo nas pontes. Tenho sonhos ansiosos em alta velocidade.

Passo meus dias a gravar lentamente - com a faca japonesa - os troncos das árvores a mensagem "A verdade é para sempre, porque a Verdade não existe".

17 novembro 2006

Hoje estou sem palavras

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Albert Bertolin - Vice, julho de 2006

09 novembro 2006

SBT

Hoje foi o primeiro dia de trabalho da minha mulher. Levei-a de carro até o SBT. Pegamos o trevo da saída 18 da Anhangüera. Uma rua ladeada de grama leva até os estúdios.

Parei na portaria. Nos beijamos. Dei a volta no pátio do estacionamento e fiz o caminho inverso na tal ruazinha.

Havia uma lombada que me fez reduzir a velocidade. Ainda sentia o gosto do beijo quando notei uma pessoa sentada na grama. Olhei e vi que na verdade eram duas pessoas, a mãe e um filho de colo. A mãe chorava como se fosse o fim do mundo.

Dirigi por mais alguns metros, até um ponto onde a rua era mais larga e fiz meia volta. Parei ao lado da mulher e abri a janela. "Moça, você está bem? Posso te ajudar?" - "Só Deus pode me ajudar, só Deus..." foi a resposta entre soluços.

Hesitei - "Olha, eu estou indo de volta para São Paulo, posso levar a senhora". Chama-la de senhora realmente não cabia na situação. Mesmo com o rosto contorcido e inchado pelo choro pude perceber que ela era um tanto mais nova que eu, vinte e poucos anos no máximo.

Ela não respondeu, apenas continuou com os soluços e as lágrimas. "Se você precisar posso te deixar em algum lugar aqui perto" - ofereci tentando não me envolver demais. Usando frases desconexas ela disse alguma coisa sobre ter ido à portaria e a terem barrado. Ela queria voltar para o marido que estava ainda tentando entrar na emissora. Também me contou que não tinha casa.

Pensamentos contraditórios tomaram conta da minha cabeça. Queria ajuda-la mas não podia perder tempo. Ainda tinha que trabalhar muito nesse dia. Abri a porta do carro para ela entrar. O bebê me ofereceu a mamadeira.

No pouco que durou nossa viagem perguntei de onde ela vinha. São José dos Campos ou São José do Rio Preto, não me recordo exatamente. "Você veio procurar o Sílvio?" - "Não, vim pedir ajuda pro Gugu".

Avistamos o marido, rodeado de sacolas com aquilo que deveriam ser provavelmente todas as posses do casal. Ele falava com o porteiro, aparentando tranquilidade. Estacionei.

" Pois não?" - me perguntou o homem uniformizado. "Eu vi essa moça tão desesperada na rua, trouxe ela e o filho para perto do marido" - "Muito obrigado, agora vai ficar tudo bem", me respondeu o funcionário da emissora.

Quis acreditar. Me concentrei e acreditei. Me despedi rapidamente, entrei no carro e acelerei em direção à estrada. Logo abaixo da placa que anuncia o início do perímetro urbano começou o engarrafamento.

04 novembro 2006

Cachorro Morto - Parte 3

Cheguei em casa.

"Por quê você demorou tanto?" - minha mulher perguntou depois de um beijo curto. Pensei no cachorro, pensei no mendigo, pensei na mulher dos cutucões. "Peguei muito trânsito." - respondi sem revelar qualquer das coisas que me perturbava.

Em silêncio ajudei-a a fazer o jantar. A luminária da cozinha desenhava na parede de azulejos amarelos. Comemos engasgados em nossa própria conversa. Evitava pensar tentando adivinhar as formas de luz.

Terminei de comer. Esperei minha mulher terminar de comer. Fomos juntos até a sala e nos sentamos no sofá. Enquanto eu passava os olhos numa revista, ela assistia televisão. Trocava tão rápido de canal que parecia assistir todos ao mesmo tempo.

Ela puxou conversa comigo. Não me sentia com vontade de responder. Silêncios diversos preenchiam nosso diálogo. Mas aquela série de perguntas sem resposta não poderia nunca ser classificada como diálogo. Era na verdade um massacre, uma tortura. Sem saber, eu a humilhava com minha indiferença.

Escutei o soluçar inconfundível que acompanha lágrimas. O som do choro reverberou em meu peito. A pedra que eu trazia no lugar do coração trincou. Se partiu. E de dentro dela começaram a gotejar todos os sentimentos que estavam presos desde o começo do dia. E depois, como uma enxurrada, saíram os sentimentos que estavam entalados há mais tempo, muito mais tempo. Percebi o quanto eu ansiava por coisas que nunca eram possíveis naquela vida que levava.

Decidi que queria ficar sozinho. De verdade. Queria me aventurar. Ser livre.

Tentei explicar o que sentia, que a queria bem mas queria ficar só. Abracei aquela mulher que agora me parecia tão frágil. Ela relutou, mas teve de aceitar minha decisão. Fizemos amor como se fosse despedida.

Ao terminar, cansados, entramos no nevoeiro que divide o sono e a vigília. A última coisa que me lembro é ela perguntar se eu sentia algum cheiro estranho. Respondi com um abraço e disse que deveríamos dormir.

Tive um sonho muito desconfortável. Uma paisagem de céu vermelho e rochas escuras, cortada por um rio. Havia um barco. O barqueiro era um mendigo com cabeça de cachorro. A cabeça atropelada do cachorrinho que cruzou meu caminho no início da tarde. Com a voz berm clara ele me pedia uma moeda, mas eu não tinha. Não poderia cruzar o rio.

Tentei acordar daquele sonho estranho. Tentei me mover. Tentei falar. Tentei ver. Mas havia uma escuridão muito mais densa que o sono.

Minha mulher tinha razão. Aquele cheiro era estranho. O gás da cozinha havia ficado aberto. Eu havia sufocado. Estava morto.