Fui jantar no meu bar favorito. Com minha ex-mulher.
Esse tipo de encontro sempre guarda a possibilidade de uma conversa potencialmente tensa.
Eu cheguei antes. Uns tantos minutos antes. Haviam conhecidos por lá. mas eu, que não queria dividir a atenção com ninguém - habilmente evitei ser visto e me sentei de costas para o salão, voltado para o bar e suas altas paredes com prateleiras até o teto, com centenas, talvez milhares de garrafas de bebidas destiladas enfileiradas.
Isso era bom. Se a conversa ficasse muito pesada ou se eu me irritado poderia usar do infalível artifício de catalogar as marcas de cachaça mentalmente. Experimente isso você também! Dá uma sensação de conforto, segurança e tranquilidade que anestesia qualquer sensação ruim.
Enquanto esperava comandei uma porção de azeitonas pretas, um chopp claro e uma cachacinha. Claudionor. É uma aguardente deliciosa mas tem um defeito. O nome é de travesti.
Um copo de chopp, uma dose de cachaça e meia porção de azeitonas depois meu celular tocou. Era minha ex-mulher perguntando o endereço. Com o trânsito e a habitual dificuldade de encontrar vagas calculei quanto tempo ela levaria e conclui que cabia mais uma cachaça antes dela chegar.
A conversa foi boa. Calorosa até. E não era apenas a cachaça. O bom humor e o estado de espírito dela encheram minha alma de boas energias. Não me dei contas na hora, mas estava imbuído de uma nostalgia que se consumava, uma lembrança revivida dos nossos bons tempos como companheiros.
Pedimos os pratos, comemos, bebemos, pedi uam sobremesa e depois um café. Paguei a conta sem perceber. Caminhamos juntos até o carro dela e nos despedimos com promessas de repetir o programa, quem sabe até com mais amigos.
A coisa só assentou quando cheguei em casa. Só. Escovei os dentes e fui me deitar. Como sempre a janela estava aberta, e a luz da rua iluminava o teto do quarto.
Meus sonhos foram felizes, mas ao acordar - um pouco melancólico - não consegui me lembrar do enredo de nenhum deles. Nem dos personagens.
Mas podia adivinhar.
20 setembro 2007
14 setembro 2007
Férias
Um período de férias me foi forçado por superiores no trabalho.
Não que eu não as merecesse. Simplesmente não sabia o que fazer com tempo livre. Tinha medo desse tempo livre. Tinha pavor de ter que encontrar pessoas nesse tempo livre.
Tomei a decisão de me lançar numa "road trip" solitária, que subisse a costa do Brasil até Salvador e voltasse por Brasília e depois Belo Horizonte. Era evidente a falta de planejamento. Os poucos amigos que souberam da idéia estapafúrdia não entendiam a razão de uma viagem tão estranha.
Só eu sabia que era para poder ficar isolado de qualquer contato humano pelo período mais longo possível. Eu teria que dirigir muitas horas, todos os dias. E intimamente já sabia que pararia apenas em lugares desolados para pernoitar.
Mas a vida é cheia de surpresas...
Assim que o Bala-de-Prata - meu fiel Celta 1.0 - pôs as rodas na estrada o sol brilhou. A correntinha da sorte devolveu a luz numa faísca. Acendi o cigarro que pendia do canto da boca e arrumei os óculos escuros.
Alguma coisa mudou em mim nessa hora.
Estava vibrante. Meu sangue, que por meses parecia gelado, ferveu. Senti um calor nas costas e no pescoço. Uma pressa gostosa de viver aquela viagem e os milhões de surpresas que me aguardavam.
...
Já na segunda parada noturna eu me esqueci da meta de falar com o menor número de pessoas possível e resolvi tomar uma cerveja num bar. Como era uma cidadezinha fuleira, o bar não oferecia muita coisa, cerveja bem fria (o que não é exatamente gelada), uns torresmos horripilantes (pelo menos para um paulistano como eu) e uns habitantes locais de dicção prejudicada (não sei se pela bebida ou pela falta de dentes importantes).
Mas - ah, correntinha da sorte - apareceu aquela pérola. Gostosa, exótica, simples e perfumada, talvez perfumada demais. Eu ainda me perguntava se ela era desdentada como os outros freqüentadores do bar quando ela me sorriu um sorriso completo. Sim, uma baianinha, da terra, daquelas que adoram um estrangeiro - como eu.
Não preciso contar o nome dela.
Quando me dei conta já estava pagando cervejas para umas cinco pessoas entre bebuns e amigas daquela coisinha deliciosa. Era um exercício e tanto compreender o que ela falava, e mais difícil ainda era arrumar assunto, mas eu fiz meu melhor.
Você é mesmo celestial! - tentei ser poético, mas soou horrível. Isso que dá se separar da mulher e depois ficar meses isolado. Sorte que ela não entendeu o que é celestial. Parti para outra abordagem, um pouco menos sutil.
Você é muito bonita, bê-u cê-e tê-a, BO-NI-TA!
Ai, você é tão romântico... parece até coisa da novela! - ela se derreteu e me confundiu com um artista da Record. Não demorou muito eu inventei uma desculpa para sair do bar e rebocar o prêmio da noite até o carro.
Mal chegamos perto do Bala-de-Prata, estacionado no pátio escuro de uma pousada mequetrefe - a única da cidade - e eu já fui agarrando a moça com mãos por todos os lados. Trepamos em cima do capô. Meses sem dar uma me fizeram sentir como um touro, um leão. A coisa foi selvagem.
E meio barulhenta. Acabou chamando a atenção de alguém que passava por perto. Que acabou avisando um primo da moça, que chamou o irmão da moça, que chamou seus dois irmãos. E o pai também.
Eu ainda sorria sem fôlego quando percebi estar cercado por quatro caras. Nenhum deles bêbado, nenhum deles sorrindo. Tentei explicar alguma coisa, mas no meio da primeira frase já tomei uma muqueta na cara. depois outra, depois outra.
Não preciso descrever o que aconteceu.
No dai seguinte acordei ao lado do valente Celta. Eu estava todo arrebentado, mas feliz por não terem destruído meu carro; e exultante por não ter sido castrado como nas histórias que os porteiros do prédio que eu morava quando era garoto contavam.
Sentia dores por todo o corpo. Entrei no carro e me olhei no espelho. vai ser chato explicar para meus amigos e colegas de trabalho como perdi tantos dentes. Agora não chamaria mais a atenção no bar.
Pior vai ser explicar como perdi o dedo anular, arrancado com um alicate quando prometi casar com a menina.
Fui ofuscado por um raio de sol que refletiu na correntinha da sorte. Merda.
Liguei o carro e peguei a estrada, rumo à São Paulo.
Não que eu não as merecesse. Simplesmente não sabia o que fazer com tempo livre. Tinha medo desse tempo livre. Tinha pavor de ter que encontrar pessoas nesse tempo livre.
Tomei a decisão de me lançar numa "road trip" solitária, que subisse a costa do Brasil até Salvador e voltasse por Brasília e depois Belo Horizonte. Era evidente a falta de planejamento. Os poucos amigos que souberam da idéia estapafúrdia não entendiam a razão de uma viagem tão estranha.
Só eu sabia que era para poder ficar isolado de qualquer contato humano pelo período mais longo possível. Eu teria que dirigir muitas horas, todos os dias. E intimamente já sabia que pararia apenas em lugares desolados para pernoitar.
Mas a vida é cheia de surpresas...
Assim que o Bala-de-Prata - meu fiel Celta 1.0 - pôs as rodas na estrada o sol brilhou. A correntinha da sorte devolveu a luz numa faísca. Acendi o cigarro que pendia do canto da boca e arrumei os óculos escuros.
Alguma coisa mudou em mim nessa hora.
Estava vibrante. Meu sangue, que por meses parecia gelado, ferveu. Senti um calor nas costas e no pescoço. Uma pressa gostosa de viver aquela viagem e os milhões de surpresas que me aguardavam.
...
Já na segunda parada noturna eu me esqueci da meta de falar com o menor número de pessoas possível e resolvi tomar uma cerveja num bar. Como era uma cidadezinha fuleira, o bar não oferecia muita coisa, cerveja bem fria (o que não é exatamente gelada), uns torresmos horripilantes (pelo menos para um paulistano como eu) e uns habitantes locais de dicção prejudicada (não sei se pela bebida ou pela falta de dentes importantes).
Mas - ah, correntinha da sorte - apareceu aquela pérola. Gostosa, exótica, simples e perfumada, talvez perfumada demais. Eu ainda me perguntava se ela era desdentada como os outros freqüentadores do bar quando ela me sorriu um sorriso completo. Sim, uma baianinha, da terra, daquelas que adoram um estrangeiro - como eu.
Não preciso contar o nome dela.
Quando me dei conta já estava pagando cervejas para umas cinco pessoas entre bebuns e amigas daquela coisinha deliciosa. Era um exercício e tanto compreender o que ela falava, e mais difícil ainda era arrumar assunto, mas eu fiz meu melhor.
Você é mesmo celestial! - tentei ser poético, mas soou horrível. Isso que dá se separar da mulher e depois ficar meses isolado. Sorte que ela não entendeu o que é celestial. Parti para outra abordagem, um pouco menos sutil.
Você é muito bonita, bê-u cê-e tê-a, BO-NI-TA!
Ai, você é tão romântico... parece até coisa da novela! - ela se derreteu e me confundiu com um artista da Record. Não demorou muito eu inventei uma desculpa para sair do bar e rebocar o prêmio da noite até o carro.
Mal chegamos perto do Bala-de-Prata, estacionado no pátio escuro de uma pousada mequetrefe - a única da cidade - e eu já fui agarrando a moça com mãos por todos os lados. Trepamos em cima do capô. Meses sem dar uma me fizeram sentir como um touro, um leão. A coisa foi selvagem.
E meio barulhenta. Acabou chamando a atenção de alguém que passava por perto. Que acabou avisando um primo da moça, que chamou o irmão da moça, que chamou seus dois irmãos. E o pai também.
Eu ainda sorria sem fôlego quando percebi estar cercado por quatro caras. Nenhum deles bêbado, nenhum deles sorrindo. Tentei explicar alguma coisa, mas no meio da primeira frase já tomei uma muqueta na cara. depois outra, depois outra.
Não preciso descrever o que aconteceu.
No dai seguinte acordei ao lado do valente Celta. Eu estava todo arrebentado, mas feliz por não terem destruído meu carro; e exultante por não ter sido castrado como nas histórias que os porteiros do prédio que eu morava quando era garoto contavam.
Sentia dores por todo o corpo. Entrei no carro e me olhei no espelho. vai ser chato explicar para meus amigos e colegas de trabalho como perdi tantos dentes. Agora não chamaria mais a atenção no bar.
Pior vai ser explicar como perdi o dedo anular, arrancado com um alicate quando prometi casar com a menina.
Fui ofuscado por um raio de sol que refletiu na correntinha da sorte. Merda.
Liguei o carro e peguei a estrada, rumo à São Paulo.
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