14 dezembro 2006

Fuga

Era um daqueles dias comuns. Fiz meu café por volta das 9:30, sonhando com uma máquina que fizesse meu café espresso igualzinho ao da padaria.

Fumei uns cigarros enquanto lia os emails e notícias. O toque do celular perturbou minha manhã de tédio. Um freela. O prazo era absolutamente suicida.

Não era suicida simplesmente no sentido de ser impossível. Era muito pior. Era suicida no sentido que, por exemplo, os judeus suicidas não têm direito a ser enterrados no mesmo solo em que os outros judeus são enterrados.

Era suicida no sentido que a minha carcaça amaldiçoada teria como destino apodrecer num lixão infecto, um antro de doenças onde urubus e ratazanas competiriam por um naco ressecado do meu traseiro morto e imundo. Um lugar que vocês não querem conhecer. Nem eu.

E eu topei.

Topei porque pagava bem e eu poderia comprar a minha máquina de café expresso, e com o troco, trocar meu telefone celular. Poderia comprar um gravador digital e uma mesa de luz. Poderia várias coisas!

A equipe que trabalharia comigo era experiente. Um sujeito um pouco mais velho que eu, gente fina, apesar da cara de que havia passado os últimos anos em masmorras; e uma mulher, mais ou menos da mesma idade, que tinha uma fílha pequena.

O trabalho começou na terça feira de tarde e deveria ser entregue sexta, cinco e meia da tarde, na Avenida Paulista, sem falta. Tinhamos que entregar o serviço completo em tempo ou o cliente, que era um mala sem alça, provavelmente cancelaria o trabalho. Isso se ele estivesse de bom humor.

O início foi amigável, piadas, histórias. O trabalho fluía. Estávamos otimistas. Durante a noite dormimos em turnos de quatro horas.

Quarta pela manhã fomos tomar o café. Tomei dois. Já voltei ansioso pro estúdio. Não almocei, e nem eles. Paramos para o lanche por volta das cinco.

As oito da noite meu colega saiu para comprar cigarros na padaria. Eu e a moça conversamos um pouco, ainda bem humorados, mesmo em vista das próximas noites. O rapaz volta duas horas depois - nas quais eu dormi - todo animado, coçando o nariz e avisando que agora estava certo de que todo mundo teria incentivo para aguentar até o final.

Ele apresenta seu conceito de motivação, a cenoura. Pois é, é deprimente mesmo. O cara vem com cocaína pro escritório, diz que você pode cheirar uma carreira a cada tanto tempo de trabalho, chama a coisa de cenoura pros burros de carga e acha que está te incentivando!.

Puta merda!

Não é preciso ser nenhum gênio pra prever que a coisa iria ficar feia. Cheiramos e tomamos café e Red Bull até o dia raiar. Trabalhei como um zumbi frenético.

Nas primeiras horas da manhã de quinta feira, tendo á frente ainda 24 horas de trabalho com probabilidade zero de poder descansar, contando com apenas 6 horas de sono nos dois últimos dias, eu fui proativo. Sugeri tentarmos negociar mais uns dias de prazo. Me voluntariei para a tarefa ingrata, inclusive.

Tenho certeza que todos vocês já viram em algum documentário da Discovery ou do Animal Planet. A mãe que protege a cria é capaz de feitos incríveis. De fato. A minha companheira de trabalho mostrou os dentes - Olha aqui, seu moleque. Eu preciso dessa grana prá bancar todas as coisas da minha filha. Se você inventar de ir negociar com eles, a gente vai perder essa grana, entendeu? E isso não vai acontecer.

Foi um choque. Se o outro cara tivesse sido agressivo, eu saberia como reagir. Mas eu não esperava o ataque de uma mãe em estado de fúria instintiva. Calei a boca e seguimos trabalhamos, tomando café e cheirando (uns muito mais, e uns muito menos).

Eu tinha virado um lixo. Nem conseguia comer direito. A moça havia comprado umas mangas uns dias antes. Eu dava umas mordidas e jogava fora. De tempos em tempos o outro cara vinha e oferecia cenoura. Eu contribuía para a harmonizar o ambiente com litros de café e maços de cigarro.

O dia passou. Eu tive taquicardia por causa do café, pressão baixa por causa do cigarro, enjôo por causa de uma coxinha. Tinha esses mal estares e rezava para meus colegas terem pena de mim e sugerirem uma pausa para dormir. Mas nada. Silêncio. E eu suando, asfixiado de ansiedade, claustrofóbico naquela salinha enevoada de cigarro, sebosa, fedendo à gente.

Tentei mais uma vez convencê-los de que valia a pena adiar o prazo de entrega por um dia apenas, para podermos dormir algumas horas. Afinal já eram quase três dias sem rpegar os olhos.

Minha iniciativa foi veementemente rechaçada. Desta vez o calaboca veio sob a forma de um "você foi contratado pra ser criativo e terminar esse trabalho. Só sai daqui quando terminar, então é melhor ser criativo, porra!" proferido pelo cara com certa dose de violência, corroborada por uma indiferença gelada da mulher, que somente arrematou - agora a gente vai até o final.

Engoli estas palavras, voltei para o meu computador e fiquei pensando nos casos em que se pode ou não fugir à responsabilidade. Me lembrei de um acontecimento muito peculiar, que se passou já há alguns anos.

Estava com um amigo no metrô. Ele era medico recém formado, vivia pulando de um plantão para outro. Eu sabia que naquele dia ele sairia do plantão por volta das 3 da tarde e combinamos de nos encontrar. O motivo eu nem lembro direito - ele tinha posto as mãos num remédio alucinógeno ou coisa do tipo.

Ele estava um caco. Um lixo mesmo. Se eu estivesse doente preferiria ver um pajé a ser atendido por um medico naquelas condições.

Entramos no vagão e nos sentamos mais ao fundo. Entre as estações Ana Rosa e Paraíso um sujeito teve um troço. Primeiro ele caiu duro, As pessoas se afastaram. Olhei para o meu amigo, que estava segurando a borda do banco com firmeza, catatônico, olhar fixo na janela em frente.

O homem, de idade indefinível neste momento de agonia, começou a babar pela boca e pelo nariz. Pssst!, Ei! – chamei meu amigo, mas ele não respondia.

Era o caso de um ataque epilético, agora até mesmo eu já reconhecia. O pobre diabo se contorcia. As mãos crispadas, olhos virados, se debatendo e esfregando a testa e a roupa clara no chão imundo do metrô

Cruz credo!!! O homem tá possuído! – gritou uma mulher no meio do vagão. Finalmente, um cara de branco levanta e vem ajudar. Era um dentista. Usou uma caneta para desenrolar a lingua do coitado, o segurou e acalmou aos poucos. Quando o vagão parou, alguns funcionários do metrô já esperavam com uma maca. O dentista e o epilético desceram.

Quando as portas se fecharam e o vagão entrou em movimento meu amigo relaxou.

Depois de descermos escutei a explicação. Como medico ele tinha a obrigação moral de atender qualquer paciente em estado de emergência. Não era como é para advogados ou engenheiros ou publitários – para quem, se não há dinheiro ou ganho imediato envolvido, não há negócio.

Mas já eram 48 hroas sem dormir, em estado de alerta e tensão, com pessoas acidentadas, sangue, fraturas, infartos. A vida de estranhos nas mãos. Isso cansa demais.

Porém sua Obrigação Moral era atender o homem. Ele havia fugido de sua Responsabilidade e se sentia culpado por isso.

Mas ele conseguira o que eu tanto queria agora. Fugir da minha responsabilidade.

Foda-se!

Foda-se foda-se foda-se! Pau no cú de todo mundo e que vão todos à merda. Que a cafeteria de merda e o celular idiota e todas essas porras queimem no inferno! Que esse cara fique devendo pro traficante dele e morra baleado! Que a filha dessa bruxa que trabalha comigo morra de desnutrição e ignorância!

Nesse momento meu colega de sofrimento me ofereçeu mais um par de carreirinhas – Vamos lá, cenoura pros burros de carga - disse sem qualquer expressão.

Sorri e aceitei. Tive a grande idéia.

Simularia um ataque epilético. Eles achariam que eu estava numa crise de overdose. Eu seria levado para o hospital, mas eles não ficariam lá para ver o fim da história. Era melhor evitar envolvimento e tinham que terminar o freela de um jeito ou de outro. Ainda mais agora, com os prováveis custos advocatícios.

Me joguei no chão, eu acho. Mas as batidas que eu dava com a cabeça nos pés da cadeira doíam demais, minha lingua me sufocava, já não escutava, tudo estava ficando escuro…

Tive mesmo um ataque, que durou muito tempo.
Tanto que agora só sei que estou no escuro e no silêncio.
Não acho que isso seja a morte.
Desconfio que estou em coma.

Um comentário:

: disse...

muito muito bom!