Era noite de 23 de dezembro há muitos anos atrás. Na época, a minha mulher ainda era minha namorada. Fui buscá-la na Vila Romana e assim que ela entrou no carro descobri onde iríamos - o Rancho Nordestino, no Bexiga. Teríamos que parar num caixa eletrônico porque nesse bar somente aceitavam dinheiro - eram os primórdios do visa eléctron e eu estavam sem meu talão de cheques.
"A agência da Clélia é a melhor!" - exclamei para a moça bonita sentada ao meu lado. Engatei a primeira, olhei para todos os lados e arranquei. "Ei! Cuidado!" - Ela me pareceu com um pouco de medo, então resolvi explicar. Havia rapidamente calculado os riscos de ser vítima de um seqüestro-relâmpago e decidi parar na agência do Banco do Brasil na rua Clélia.
"Eu sei que lá é meio escuro, mas as outras opções são a Afonso Bovero ou a Heitor Penteado" - muito mais visadas por marginais em geral. - "Sem contar que a faixa de ônibus diminui a probabilidade de abordagem por motoqueiros e..."
"Calma, cara!" - interrompeu minha namorada - "Fica calmo, ninguém vai te seqüestrar hoje."
Sem mais acontecimentos inesperados ou surtos de paranóia, chegamos ao bar. Era um bar de esquina, na Manuel Dutra com a XXX, todo aberto, colunas cobertas de pastilhas azul-claro. Vários amigos, muitos brindes, intermináveis risadas. Até que alguém me pergunta - "Ei, você não é judeu?" - ao que se segue a invitável - "E como é o natal de vocês?".
Entre cachaças e torresmos me pus a explicar os pormenores do ritual que chamávamos de Ceia da Larica - "Isso era quando eu tinha uns 14 anos" - comecei - "A gente abria sessão com um beque natalino nevado e um shot de qualquer bebida que tivesse no bar da casa do pai do Roni".
O resto se desenrolava entre baseados, rodadas de baconzitos e licores de ingredientes estranhíssimos, quem sabe eram regalos de natais imemoriáveis que o pai de nosso anfitrião nunca teve coragem de provar. "Finalmente, quando a larica era insuportável, comíamos um rango absolutamente nojento de miojo enquanto blasfemávamos agoniados"
"Que merda! parece até aquele Festivus" - exclamou um dos convivas, que provavelmente só escutou o finzinho da minha explicação. "Festivus? Que porra é essa???" - disse, sem entender. "Aquela festa que o pai do Geroge Costanza inventou para celebrar em lugar do natal" - meu companheiro de mesa explicou - "Ah, do Seinfeld..." - respondi, para demonstrar que também tinha um pouco de referência cultural.
"Isso! É aquela festa que em vez da árvore de natal eles montam um mastro de alumínio sem enfeites" - o sujeito se empolgou - "Nunca vi esse" - disse, disfarçando o saco cheio - "É! E depois ficam todos falando das coisas ruins que fizeram uns pros outros. Rá, rá, rá!" - o cara se divertia sozinho. "Comédia, mas não tem nada a ver com a Ceia da Larica" - cortei, certo de que depois dessa o adversário capitularia. Eu fui surpreendido. "Mas é tão mesquinho e escroto quanto!" - foi o golpe final do meu oponente.
"Rá rá rá!" - explodiu a mesa em gargalhadas.
Como era natal resolvi não responder a altura. Nem virar a mesa e quebrar uma garrafa na cabeça de alguém. Isso provavelmente não causaria boa impressão na minha futura esposa. Para quebrar a tensão uma boa alma propôs um brinde. "Com discurso!" - uma menina pediu. "E quem vai discursar?" - surgiu a pergunta - "Ele, que é judeu!" - veia a resposta, que soou surpreendentemente óbvia para mim.
"Eu não!" - tentei me esquivar - "Discurso! Discurso! Discurso!" - respondeu o coro. Estava encurralado. Não tinha por onde escapar. Aquele momento pareceu durar muito. Tive tempo de pensar na minha relação com Jesus Cristo. Pensei nos milênios de perseguições. Pensei na Inquisição, nos Pogroms. Pensei na Segunda Guerra Mundial e nos seis milhões de judeus assassinados, entre eles o pai, a mãe e quase todos os oito irmãos e irmãs do meu avô. Não era o estado de espírito ideal para um discurso de natal. Subi numa cadeira. Abri a boca.
Então, o milagre.
É curioso. Milagres na vida real não vêm com som de clarinetas nem luzes ou chuva de pétalas. Esse, pelo menos, veio acompanhado pelo som de uma batida de carro. CRASH!!! - sem freada, sem grito, nem nada, só a porrada num volume altíssimo. Em seguida uma chuva de pedacinhos de vidro e plástico entrou no bar e se espalhou por todo o chão.
Eu estava de costas para a rua, mas de pé na cadeira, preparado para o discurso. Não vi o que aconteceu, mas mesmo assim demorei uns 10 segundo em choque. Em silêncio, assim como o resto das pessoas do bar. Me virei, e a primeira coisa que vi foi um disco que parecia a calota. Estava uns sete ou oito metros distante do lugar onde uma vez ficou a roda dianteira esquerda - essa sim, totalmente fora de vista. O tal disco, numa segunda olhada, era na verdade a ventoinha do motor.
Olhei para o carro com medo e vi um destroço azul quase na contramão, enfiado em um poste, com metade da frente estranhamente amassada. Através dos vidros estilhaçados grudados na película do insul-film eu só distinguia formas vagas e brancas. Eram os airbags. De dentro do veículo - um Peugeot, como descobri depois numa grade do motor embaixo da minha cadeira - saíram dois homens cambaleantes, em estado de choque e cheirando à álcool.
O clima festivo da noite já era, é verdade. Mas isso me parecia positivo. Triplamente positivo.Se não fosse o poste eu e muitos outros no bar estaríamos mortos. Se não fossem os airbags o motorista e o passageiro do carro estariam mortos. Se não fosse o acidente eu teria feito o meu discurso e estragado a noite, sem falar na possibilidade de arriscar o incipiente namoro.
O natal é mesmo uma época mágica.
25 dezembro 2006
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Um comentário:
eu tinha a impressão de que nenhum outro relato sobre judeus + natal pudesse ser tão bom quanto seu discurso em Londres. Mas acabo de ler esse e ver que tinha me enganado.
adorei
Bárbara
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