Hoje foi o primeiro dia de trabalho da minha mulher. Levei-a de carro até o SBT. Pegamos o trevo da saída 18 da Anhangüera. Uma rua ladeada de grama leva até os estúdios.
Parei na portaria. Nos beijamos. Dei a volta no pátio do estacionamento e fiz o caminho inverso na tal ruazinha.
Havia uma lombada que me fez reduzir a velocidade. Ainda sentia o gosto do beijo quando notei uma pessoa sentada na grama. Olhei e vi que na verdade eram duas pessoas, a mãe e um filho de colo. A mãe chorava como se fosse o fim do mundo.
Dirigi por mais alguns metros, até um ponto onde a rua era mais larga e fiz meia volta. Parei ao lado da mulher e abri a janela. "Moça, você está bem? Posso te ajudar?" - "Só Deus pode me ajudar, só Deus..." foi a resposta entre soluços.
Hesitei - "Olha, eu estou indo de volta para São Paulo, posso levar a senhora". Chama-la de senhora realmente não cabia na situação. Mesmo com o rosto contorcido e inchado pelo choro pude perceber que ela era um tanto mais nova que eu, vinte e poucos anos no máximo.
Ela não respondeu, apenas continuou com os soluços e as lágrimas. "Se você precisar posso te deixar em algum lugar aqui perto" - ofereci tentando não me envolver demais. Usando frases desconexas ela disse alguma coisa sobre ter ido à portaria e a terem barrado. Ela queria voltar para o marido que estava ainda tentando entrar na emissora. Também me contou que não tinha casa.
Pensamentos contraditórios tomaram conta da minha cabeça. Queria ajuda-la mas não podia perder tempo. Ainda tinha que trabalhar muito nesse dia. Abri a porta do carro para ela entrar. O bebê me ofereceu a mamadeira.
No pouco que durou nossa viagem perguntei de onde ela vinha. São José dos Campos ou São José do Rio Preto, não me recordo exatamente. "Você veio procurar o Sílvio?" - "Não, vim pedir ajuda pro Gugu".
Avistamos o marido, rodeado de sacolas com aquilo que deveriam ser provavelmente todas as posses do casal. Ele falava com o porteiro, aparentando tranquilidade. Estacionei.
" Pois não?" - me perguntou o homem uniformizado. "Eu vi essa moça tão desesperada na rua, trouxe ela e o filho para perto do marido" - "Muito obrigado, agora vai ficar tudo bem", me respondeu o funcionário da emissora.
Quis acreditar. Me concentrei e acreditei. Me despedi rapidamente, entrei no carro e acelerei em direção à estrada. Logo abaixo da placa que anuncia o início do perímetro urbano começou o engarrafamento.
09 novembro 2006
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Um comentário:
Porra David, ate hoje estou em uma duvida que, não chega a ser existencial, mas povoa minha mente: até onde tua viajem é ficção (e lembra o mirisola, já ta bom) ou até onde tu viaja?!? Enfim, independente da resposta, acho que está interessante, tirando uns momentos onde vc acha q carne moída se mistura com literatura, e acredito q vc tem um certo talento, mesmo que obscuro, pra falar da vida com humoe neeeeeeeeegro, mas o que vale mesmo é a divers~]ao, né? Saudade das nossas insanidades é uma constante, dos nossos amigos em comum é praxw, dá pra resolver tudo de uma vez? Acho difícil, masmesmo assim fica o convite, mesmo que seja para um café...
Aquele abraço, lembrando de quem ta no Rio...
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