Havia combinado de encontrar minha esposa num restaurante japonês. Escolhemos um daqueles com balcões onde você pode observar o trabalho do sushiman. Não era exatamente um restaurante tradicional, mas já existia há muito tempo e eu chamava o rapaz do outro lado do balcão pelo nome.
A conversa demorava a engrenar. Trabalhos, shows de música, livros e histórias estranhas de festas de pessoas que eu lembrava do nome mas não conhecia. Nada disso era páreo para o brilho da lâmina da faca que cortava o peixe.
O reflexo da luz no metal me hipnotizava, indo e vindo, como se a carne do atum não oferecesse resistência.
Esperei pelo momento certo. O sushiman se distraiu com algum comentário do outro lado do balcão, eu agarrei a faca e dei no pé.
Depois dessa atitude impulsiva seria difícil voltar a ser bem atendido naquele restaurante. Muito mais difícil seria minha mulher me achar normal novamente.
Corri alguns quarteirões com a arma branca nas mãos. Parei numa praça escura para descansar. Me sentei num banco. A única luz ali era o reflexo da lua na lâmina afiada.
Desde então entendi tudo.
Vivo nas avenidas. Amo as marginais. Durmo nas pontes. Tenho sonhos ansiosos em alta velocidade.
Passo meus dias a gravar lentamente - com a faca japonesa - os troncos das árvores a mensagem "A verdade é para sempre, porque a Verdade não existe".
18 novembro 2006
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