04 novembro 2006

Cachorro Morto - Parte 3

Cheguei em casa.

"Por quê você demorou tanto?" - minha mulher perguntou depois de um beijo curto. Pensei no cachorro, pensei no mendigo, pensei na mulher dos cutucões. "Peguei muito trânsito." - respondi sem revelar qualquer das coisas que me perturbava.

Em silêncio ajudei-a a fazer o jantar. A luminária da cozinha desenhava na parede de azulejos amarelos. Comemos engasgados em nossa própria conversa. Evitava pensar tentando adivinhar as formas de luz.

Terminei de comer. Esperei minha mulher terminar de comer. Fomos juntos até a sala e nos sentamos no sofá. Enquanto eu passava os olhos numa revista, ela assistia televisão. Trocava tão rápido de canal que parecia assistir todos ao mesmo tempo.

Ela puxou conversa comigo. Não me sentia com vontade de responder. Silêncios diversos preenchiam nosso diálogo. Mas aquela série de perguntas sem resposta não poderia nunca ser classificada como diálogo. Era na verdade um massacre, uma tortura. Sem saber, eu a humilhava com minha indiferença.

Escutei o soluçar inconfundível que acompanha lágrimas. O som do choro reverberou em meu peito. A pedra que eu trazia no lugar do coração trincou. Se partiu. E de dentro dela começaram a gotejar todos os sentimentos que estavam presos desde o começo do dia. E depois, como uma enxurrada, saíram os sentimentos que estavam entalados há mais tempo, muito mais tempo. Percebi o quanto eu ansiava por coisas que nunca eram possíveis naquela vida que levava.

Decidi que queria ficar sozinho. De verdade. Queria me aventurar. Ser livre.

Tentei explicar o que sentia, que a queria bem mas queria ficar só. Abracei aquela mulher que agora me parecia tão frágil. Ela relutou, mas teve de aceitar minha decisão. Fizemos amor como se fosse despedida.

Ao terminar, cansados, entramos no nevoeiro que divide o sono e a vigília. A última coisa que me lembro é ela perguntar se eu sentia algum cheiro estranho. Respondi com um abraço e disse que deveríamos dormir.

Tive um sonho muito desconfortável. Uma paisagem de céu vermelho e rochas escuras, cortada por um rio. Havia um barco. O barqueiro era um mendigo com cabeça de cachorro. A cabeça atropelada do cachorrinho que cruzou meu caminho no início da tarde. Com a voz berm clara ele me pedia uma moeda, mas eu não tinha. Não poderia cruzar o rio.

Tentei acordar daquele sonho estranho. Tentei me mover. Tentei falar. Tentei ver. Mas havia uma escuridão muito mais densa que o sono.

Minha mulher tinha razão. Aquele cheiro era estranho. O gás da cozinha havia ficado aberto. Eu havia sufocado. Estava morto.

2 comentários:

Anônimo disse...

David,

Muito bom...

Morte por gas foi uma falha, fatalismo desnecessario na linha final, mas ta valendo.

O resto tah muito bom, sem desperdicio, du jeito qui o homi eh.

Grande abraco e continuo acompanhando as producas.

Leo

Anônimo disse...

Caralho David. Se a intenção era deixar o leitor angustiado, conseguiu!!!
Justo na estréia de minha leitura encontro essa história!!! pra completar, ainda li que nem japonesa!! De trás pra frente! E ainda sim, a angústia se fez presente. Gostei de como escreve. Mas doeu. E ainda dói.
Abs