18 novembro 2006

Cachorro Morto - Parte 2

Hoje meu coração é de pedra, atropelei um cachorro na avenida.
Mas isso não me faz sentir menos vulnerável.

Agora já é noite. Estou no trânsito, acelerando, freando, acelerando, freando, faz quase duas horas. Na Marginal Pinheiros, mais uma vez. É tão devagar que já é hora de atender aos compromissos sociais. Festa de aniversário, happy hour, lançamento de livro, vernissage em galeria - faz diferença?

Fiquei preso numa conversa desinteressante, que uma mulher me contou sobre uma viagem que eu não queria saber. Ela contava os detalhes e me cutucava no braço ou no ombro.

Eu odeio que me toquem. Afora os cumprimentos habituais nas horas habituais - apertos de mão, abraços e beijos no rosto - não sou muito chegado à proximidadde física. A não ser, é claro, de pessoas muito especiais, em momentos muito especiais.

Mas não era esse o caso.

Eu tentei me defender. Escondi o braço atrás do corpo. Foi muito pior, os toques - quase golpes àquela altura - passaram a me atingir no peito e na barriga. O desconforto da situação me subiu ao rosto. Ficou evidente que algo não me agradava. Com as costas voltadas para a parede num bar barulhento percebi que não havia saída fácil. Estava encurralado.

Sufocado.

Sob o pretexto de comprar cigarros pedi licença e saí do bar. Caminhei lentamente até uma padaria próxima. Um mendigo falou comigo. Era um mendigo jovem, negro, de rosto bonito e voz clara. "Me dá uma esmola?" Eu estranhei muito o uso do termo esmola. geralmente se escuta "me dá uma moeda" ou "me dá uma forcinha?" Neguei o dinheiro.

Entrei na padaria e comprei meu Marlboro vermelho. Na saída um pequeno tumulto havia tomado a rua, muitas vozes no meio do barulho do trânsito. Alguém havia sido atropelado. Lembrei do cachorrinho. Escutei alguém dizer que o mendigo tinha se jogado embaixo de um ônibus. Não fui olhar.

Voltei ao bar. Me sentei numa mesa vazia qualquer. Em silêncio de novo. Com muito esforço consegui fazer minha mente ficar em branco.

A mulher dos cutucões voltou. Protegido pela distância que a mesa nos obrigava a manter me senti melhor. Mas não o suficiente para falar. Acho que ela deve ter tentado conversar comigo por quase dez minutos antes de me perguntar se eu me sentia bem.

Abri a boca. Não sei o que disse. Levantei e fui embora.

Pela terceira vez no dia guiava em alta velocidade na Marginal Pinheiros. Folhas secas, pedaços de papel e outras coisas se misturavam em torvelinhos no vento. Os pequenos rodamoinhos de sujeira corriam mais que meu carro. Aquele cheiro que antecede a chuva era mais forte que o fedor do rio.

Mas chuva não veio. A verdadeira tempestade que me aguardava não estava no céu. Me esperava para o jantar.

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