Acordei no meio de um pesadelo. Me atracava com um inimigo mortal. Eu pulava no pescoço dele. Minhas unhas como cacos de vidro na garganta. Dei um pulo na cama, em direção à jugular da minha mulher, que despertou assustada com meu sonambulismo assassino. Tomamos café da manhã.
Fui com ela até uma emissora de TV, num distrito industrial, muito distante. Nos perdemos. Conheci o Rodoanel. Peguei trânsito no final da Anhangüera.
Resolvi emendar os compromissos e tive de emendar viagens. Grandes distâncias. Extremos da cidade.
Percorri toda a Marginal Pinheiros sem pôr o pé no freio. Sol e asfalto, calor e cimento. Driblando caminhões tomei o caminho da esquerda, Guido Caloi. Direita na M'boi Mirim, em direção ao Jardim Ângela. Apesar de ser sexta-feira, quase duas da tarde, poucos carros apareceram para dificultar o meu caminho.
Mesmo assim, já eram quase três horas guiando.
No corredor de ônibus um biarticulado parou no ponto. Um cachorrinho saiu correndo logo à frente, numa tentativa fatal de atravassar a rua. Meti o pé no freio e joguei o carro para a direita. O pequeno animal fez suas últimas - e infelizes - escolhas. Correu de um lado para o outro. O barulho dos pneus gastando na rua. Brevemente interrompido duas vezes por um som surdo. Scriiiiii toc toc scriiiiii.
Uma sensação péssima. Pressão no estômago. Olhei pelo retrovisor, e reconheci o vulto escuro de um cachorro dançando mais de um palmo acima do chão em violentas convulsões.
Parei o carro em algum lugar - uns 20 metros depois - já tentando mentalizar que era apenas um cachorro, num acidente, não era culpa minha, e se fosse, não seria muita coisa, afinal. era só um cachorrinho.
Desci do carro acendendo um cigarro. Calafrios faziam minhas mãos tremer. Ânsia de vômito.
Olhei e vi duas crianças - um menino e uma menina - e uma moça de uns vinte anos em volta do animalzinho agonizante. O menino, que provavelmente havia arrastado o bicho do meio da avenida até a calçada, pôs a mão no peito do coitado.
O corpinho aparentemente intacto, os pêlos ainda tentando me convencer que eram bonitos e saudáveis. Percebi as tetinhas - era uma cadelinha. Também notei os sangue escorrendo do ouvido. E os olhinhos para fora das órbitas. Entendi que havia acertado a cabeça.
"O coração parou de bater" - disse o menino. Fiquei em silêncio. Muito silêncio. Não ouvi ninguém chorar. Não ouvi o barulhos dos carros, ônibus e caminhões na avenida. Não ouvi nem meus pensamentos.
18 novembro 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário