19 outubro 2006

Pãezinhos

Resolvi comprar pão naquele mercado porque era o único lugar que vendia pão realmente fresco após as nove da noite. Fresco mesmo, a última fornada saía quinze para as nove. O inconveniente era que o mercado era grande, com muitos corredores, muita gente. Mesmo naquele domingo frio, mesmo naquela hora, mesmo com aquela chuva. 

Entrei no estacionamento do subsolo e o segurança apenas acenou, em lugar de me pedir para parar, anotar a minha placa e me entregar o canhoto como era de costume. Não precisei parar, então acelerei e fiz a curva em direção às vagas. Pisei forte no freio, para ouvir gritos e uns xingamentos. Quase havia atropelado um casal com suas compras. Como eu podia não os haver visto?! A única justificativa que eu pude dar a mim mesmo, no meio do susto, era a última semana de trabalho alucinada, sem horários para acabar, dia após dia, e que ainda se estenderia pela próxima semana. Parei o carro já apontando para a saída. 

Assim que entrei no mercado, sem saber exatamente porquê, peguei um carrinho, daqueles pequenos. Me dei conta e troquei por uma cesta, que acabei abandonando na seção de frutas e verduras. Ainda atordoado (pela freada brusca ou pela falta de sono - não sei) caminhei pelos corredores em passos rápidos e embaralhados, sem pensar em absolutamente nada, observando as gôndolas cheias de produtos que não me diziam muita coisa, até que me lembrei do pão. O pão! Minha única razão para ter vindo aqui! 

Ao mudar de direção bruscamente esbarrei e quase derrubei uma mulherzinha que fazia compras carregando um bebê e acompanhada de uma filha. Tudo nela me causava estranhamento, sua cabeça desproporcional à altura, a testa larga e alta, os olhos separados demais, a pele do rosto marcada, a boca cheia de dentes tortos, nariz e queixo pontudos. Ela simplesmente me olhou e não disse nada. Murmurei desculpas rapidamente e segui, com os pensamentos congestionados, para os fundos do mercado, onde ficam os pães. 

Fui direto para a cesta de pães frescos. Enfiei minhas mãos ávidas nos pãezinhos ainda quentes, apenas para receber olhares condenatórios de dois senhores de meia idade, que deram voz à indignação.  

De onde eles apareceram?? Será que eu não havia notado a fila? Ou eles simplesmente se achavam no direito de se servirem antes de mim por serem mais velhos? Resolvi pedir desculpas mais uma vez. Me justifiquei - "Desculpem-me, eu sou muito apressado e às vezes me descontrolo" - argumento que não pareceu comover nenhum dos homens. 

A fila andou, peguei meus pães, e fui para o caixa. Na minha frente um casal jovem pagava uma pequena compra, de vinho, cerveja e chocolates. Houve algum imprevisto, com o cartão, eu acho, chamaram a gerente, uma demora que para mim foi excruciante, deixei escapar um suspiro estranhamente agressivo. Enquanto esperavam o problema ser resolvido, a moça cochichou alguma coisa para o namorado, enquanto me olhava vagamente. Talvez eu esteja enganado, mas tenho quase certeza de ter reconhecido um misto de escárnio e desaprovação naqueles olhos. 

Percebi um movimento rápido atrás de mim. A mulher em quem eu havia esbarrado antes de comprar os pães estava ali. A filha reclamando, pedindo para a mãe comprar algum doce. Provavelmente para deixar bem claro que naquela noite não haveria doce algum, a mãe começou a colocar as compras na esteira do caixa com vigor. Plaft - um pacote de macarrão. "Mãe, uma balinha?" - plaft - uma lata de azeite. 

Achei melhor olhar para baixo e apenas escutar o mudo debate de mãe e filha, evitando o contato visual. Na terceira rodada de pedidos seguidos do barulho meio surdo que os produtos postos com força excessiva na esteira fazem, um pote de meio quilo de margarina apareceu disposto exatamente em cima do meu saco de pães. Que inferno! Essa mulher me parecia um um pequeno demônio agora. Com sua pequenas filhas-demônio, amassando meu pão como castigo por eu ter esbarrado nela. 

"Boa noite" - disse mecanicamente a moça do caixa, interrompendo meus pensamentos. O casal da frente já havia ido embora. "Essas compras também são do senhor?" - perguntou, apontando para a margarina, o azeite e o macarrão. "Não, só os pãezinhos, obrigado". Paguei rapidamente, e fui em direção ao estacionamento no piso inferior.

Sentia pressa. Desci afobado os lances da escadaria, que formavam uma espiral quadrada. Tive a impressão de ter descido vários andares, e não apenas um. A garagem estava muito mais vazia, com um setor já escuro, sem iluminação. Mas meu carro estava na parte onde as lâmpadas ainda estavam acesas. Corri, abri a porta, joguei a sacola com os pães no banco de trás e acelerei, cantando os pneus - meu deus, porque tanta pressa? Tudo isso é apenas medo irracional daquela mulher com a testa larga e cara de diabo? 

Mais uma freada. Desta vez era outro carro, com o casal que estava na minha frente na fila do caixa. Escutei mais um sonoro palavrão, que eu ignorei, pois via o portão do estacionamento aberto na minha frente. Acenei para o segurança, saí do estacionamento, fiz uma curva á à direita e olhei no retrovisor. Tive certeza de que aquele casal agora me seguia.  
Medo? Sensações de sufocamento, pressa e ansiedade. Pressentia a punição diabólica. Mas quem seria? 

A moça que estava na minha frente no caixa? Ela tinha um olhar ameaçador, era verdade. 

A mãe diaba e suas filhas demônio? O medo que elas me inspiravam vinha de dentro do estômago e me gelava a espinha. 

Ou aqueles senhores da fila do pão? Não, eles não fariam isso, eu acho. 

Acelerei mais, furei um par de sinais vermelhos, ultrapassei irresponsavelmente alguns carros, estacionei de qualquer maneira na frente da minha casa. Destranquei, entrei, tranquei o portão. Atravessei o corredor a passos largos. Destranquei, entrei, tranquei a porta. Larguei as compras na mesa da cozinha, me sentei numa cadeira. Senti um cheiro acre, parecido com o cheiro dos hospitais.  

Precisava parar, relaxar. Acendi um cigarro. Abri o saco de pães. Estavam todos amassados, com certeza por causa da margarina que havia sido atirada sobre eles. Perdi o apetite. Fui me deitar horas depois, sabendo que teria menos tempo que o necessário para dormir até que meu despertador tocasse.

2 comentários:

Anônimo disse...

David,
Rebordosa já disse um dia, mas agora acho que serve pra ti:
Essa vida de sexo, drogas e rock´n´roll está acabando com vc...
Sugiro parar de vez com o rock´n´roll..
beijos
Sil

Brenda Ligia disse...

Nossa... muy fuerte, Mixelço.
O sufocamento que sentia é passado em cada milímetro de palavra... visualizei tudo. Um curta-metragem. Quase um poema.