Foi num daqueles dias de deliciosa fúria.
O prazo de entrega daquele freela para um cliente novo estourando. Noites viradas. Trânsito. Contas a pagar. Todos os exageros recentemente cometidos. O abuso de cafeína e bebidas alcoólicas. Os gostos extravagantes e dispendiosos. A falta de planejamento. As baladas no meio da semana. Tudo. Agora eu sou stress, ansiedade, mania, paranóia e uma conta bancária perigosamente tendendo ao zero.
Mas é véspera do feriado de 12 de outubro, duas da tarde, e brilha uma luz no céu. Dia de uma santa de uma religião que não é a minha. Mas caí nas graças dela com certeza, porque meu cliente resolveu pagar a equipe antes do fim de semana prolongado.
No meu caso o pagamento foi um cheque nominal e não cruzado. Isso exigiria movimentos ousados e certeiros para garantir um feriado feliz.
Eu teria que ir até o Banco Santander, trocar o cheque, me dirigir ao Banco Real - o meu banco - e depositar a grana. Somente assim teria fundos para o que quer que fosse nos próximos dias. Escolhi as agências da Pedroso de Morais, em Pinheiros, porque ficam a uma distância de 30 metros uma da outra.
Parei o carro na agência do Real, que é a única que tem estacionamento. Caminhei tranquilamente até a agência do Santander e entrei na fila do caixa. Chegou minha vez e - uau - adrenalina, ansiedade. Mal consegui abrir a boca, apenas mostrei o cheque e murmurei alguma coisa que nem eu mesmo entendi.
A moça tirou vários chumaços de dinheiro do caixa, todo mundo podia ver. Comecei a sentir frio na barriga. Ela contou ostetativamente, me estendeu a pilha de cédulas e perguntou se eu queria contar. Não lembro de ter respondido, mas provavelmente contei as notas, certamente com as mãos tremendo.Também não me recordo de ter agradecido ou assinado algum papelzinho. Acho que simplesmente agarrei os volumosos bolos de notas de 50, meti no bolso e comecei a suar frio.
O meu banco ficava a menos de 30 metros de onde eu estava, mas só de pensar de sair de perto dos seguranças armados me deu vertigem. Aproveitei meus últimos momentos de segurança para vasculhar com os olhos o saguão do banco em busca de alguma pessoa me observando de maneira suspeita.
Atravessei a porta giratória blindada inspirando ar, olhar fixo na porta de vidro da saída. Terminei o giro e apertei o passo. Um, dois, três, quatro passos. Estou na rua. Vento, barulho, fumaça - não sinto absolutamente nenhum deles. Antes que eu possa perceber dou um pulo e me ponho a correr - braços agitados como um louco - em direção a agência de meu banco.
Corri como se fosse para salvar a minha própria vida. E acho que talvez isso não fosse exagero, porque eu não deixaria ninguém tocar na minha grana e no caso de um assalto provavelmente estaria disposto à levar um tiro na cabeça antes de entregar o dinheiro.
Cheguei na agência bufando, arremessei todos os meus pertences (celular, chaves, carteira, isqueiro, cigarro, tic tac) na caixinha de plástico e me atirei na porta giratória. Sorri pro negão de arma em punho e com colete a prova de balas que estava fazendo o turno de vigia. Ah, como me senti bem!
Esperei minha vez de ser atendido. Depositei a grana. Sorri aliviado.
19 outubro 2006
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